Descobri a ilha em 1984. Naquele Agosto havia pouco mais do que uma centena de banhistas. Hoje são aos milhares. Habituei-me em cada ano a contar o número de casas, hotéis, bares e restaurantes a mais. E em cada ano lá estou eu a queixar-me aos naturais que estão a "dar cabo da minha ilha" !! Compreendem-me o devaneio egoísta, porque gostam sempre de me ver regressar, como se eu já fizesse parte da paisagem. Porto Santo não é só a melhor praia que conheço, com sol , areia e mar de qualidade especial. É a ilha dos ventos, que sopram mornos ao entardecer e se enfurecem de vez em quando. Em Porto Santo respiro e durmo como em mais nenhum outro lugar, porque o silêncio ali ainda se sente. Também por isso, é o lugar ideal para tocar o absoluto, seja a criação, seja o amor.
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Fernão Nunes era pastor naquela ilha pequena demais para os seus sonhos. Algumas centenas de metros percorridas em qualquer direcção, e lá estava o mar, profundo e omnipotente a ditar limites. No horizonte, as Desertas e a Madeira. No molhe, os barcos que atracavam com mercadorias ou na volta da pesca. Havia ainda as igrejas, de que gostava, e o seu tio, o Padre Vaz, que lhe dera alguma doutrinação, embora não o ensinasse a ler nem a escrever. E o pai que lhe deixara aquelas terras e gado, mais do que a maioria tinha, mas que nada lhe rendiam sem muito trabalho. E foi então, naquele ano de 1533, que começou a ouvir vozes. Pensou, no início, ser algum canto do mar batido por um vento travesso. Veio até ao areal no Campo de Baixo para ter a certeza, não fosse afinal o eco que serpenteava nas encostas da Serra de Fora. Não. Era a voz do Espírito Santo, a voz que o incitava à penitência e à salvação das almas. Tinha, pois, uma missão, encontrara um sentido para a vida.
Correu a casa da sobrinha Filipa, que há anos se dizia entrevada, e logo a curou. Soltando grandes exclamações, bençãos e maldições foram os dois percorrendo os lugares, espalhando a boa nova: que todos se desfizessem das riquezas e andassem só de camisa, que orassem a noite inteira nos adros das capelas dos montes, que o Espírito os puniria se não se arrependessem.
Recebidos por muitos com chacota, demonstrou Fernão os seus poderes, revelando na praça pública os pecados de cada um, mesmo os nunca confessados. Foi tal o temor, que até os frades se calaram de espanto. E ao tabelião, por ser descrente, logo ali lhe deu morte a turba de convertidos, seguindo depois pelos caminhos em estrondosa procissão, a que se iam juntando cada vez mais fiéis.
E assim passaram duas semanas. Houve, no entanto, quem conseguisse levar as más novas à Madeira. Quando o Corregedor desembarcou na Vila Baleira, encontrou praticamente toda a população em estado de transe, como se estivesse de facto possuída por um espírito. Porém, de “santo” só ali restava o nome da terra. Bastaram alguns minutos de admoestação, e a força das armas, para os porto-santenses acordarem do pesadelo e encararem a humilhação da fama de néscios para a posteridade. Presos e levados à justiça real, em Lisboa, foram Fernão e Filipa. Ao pescoço exibiam um letreiro com a inscrição:“Profeta do Porto Santo”. Nunca regressariam à ilha natal.
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Porto Santo lhe chamaram os marinheiros do Infante D. Henrique, por refúgio ter sido de grande tempestade. Aqui se acolheram, beijaram a areia dourada da praia, rezaram missa de acção de graças. Descobriram uma ilha inabitada, mas ainda verdejante. Do alto do promontório avistaram outra ilha, maior e mais verde. Para lá partiram poucos dias depois. E foi assim que tudo começou. Primeiro os barcos, depois os mercadores, em seguida os colonos, pelas costas marítimas de todo o mundo. Para Porto Santo veio depois Colombo, estudando os ventos, olhos fixos no Ocidente. E muitas e grandes secas e reiterados ataques de corsários. Uma ilha pobre, árdua e inóspita, tal como o deserto, só pode ser pátria de profetas. Hoje é refúgio terapêutico a preservar para corpos cansados e almas serenas.
Fernão Nunes era pastor naquela ilha pequena demais para os seus sonhos. Algumas centenas de metros percorridas em qualquer direcção, e lá estava o mar, profundo e omnipotente a ditar limites. No horizonte, as Desertas e a Madeira. No molhe, os barcos que atracavam com mercadorias ou na volta da pesca. Havia ainda as igrejas, de que gostava, e o seu tio, o Padre Vaz, que lhe dera alguma doutrinação, embora não o ensinasse a ler nem a escrever. E o pai que lhe deixara aquelas terras e gado, mais do que a maioria tinha, mas que nada lhe rendiam sem muito trabalho. E foi então, naquele ano de 1533, que começou a ouvir vozes. Pensou, no início, ser algum canto do mar batido por um vento travesso. Veio até ao areal no Campo de Baixo para ter a certeza, não fosse afinal o eco que serpenteava nas encostas da Serra de Fora. Não. Era a voz do Espírito Santo, a voz que o incitava à penitência e à salvação das almas. Tinha, pois, uma missão, encontrara um sentido para a vida.
Correu a casa da sobrinha Filipa, que há anos se dizia entrevada, e logo a curou. Soltando grandes exclamações, bençãos e maldições foram os dois percorrendo os lugares, espalhando a boa nova: que todos se desfizessem das riquezas e andassem só de camisa, que orassem a noite inteira nos adros das capelas dos montes, que o Espírito os puniria se não se arrependessem.
Recebidos por muitos com chacota, demonstrou Fernão os seus poderes, revelando na praça pública os pecados de cada um, mesmo os nunca confessados. Foi tal o temor, que até os frades se calaram de espanto. E ao tabelião, por ser descrente, logo ali lhe deu morte a turba de convertidos, seguindo depois pelos caminhos em estrondosa procissão, a que se iam juntando cada vez mais fiéis.
E assim passaram duas semanas. Houve, no entanto, quem conseguisse levar as más novas à Madeira. Quando o Corregedor desembarcou na Vila Baleira, encontrou praticamente toda a população em estado de transe, como se estivesse de facto possuída por um espírito. Porém, de “santo” só ali restava o nome da terra. Bastaram alguns minutos de admoestação, e a força das armas, para os porto-santenses acordarem do pesadelo e encararem a humilhação da fama de néscios para a posteridade. Presos e levados à justiça real, em Lisboa, foram Fernão e Filipa. Ao pescoço exibiam um letreiro com a inscrição:“Profeta do Porto Santo”. Nunca regressariam à ilha natal.
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Porto Santo lhe chamaram os marinheiros do Infante D. Henrique, por refúgio ter sido de grande tempestade. Aqui se acolheram, beijaram a areia dourada da praia, rezaram missa de acção de graças. Descobriram uma ilha inabitada, mas ainda verdejante. Do alto do promontório avistaram outra ilha, maior e mais verde. Para lá partiram poucos dias depois. E foi assim que tudo começou. Primeiro os barcos, depois os mercadores, em seguida os colonos, pelas costas marítimas de todo o mundo. Para Porto Santo veio depois Colombo, estudando os ventos, olhos fixos no Ocidente. E muitas e grandes secas e reiterados ataques de corsários. Uma ilha pobre, árdua e inóspita, tal como o deserto, só pode ser pátria de profetas. Hoje é refúgio terapêutico a preservar para corpos cansados e almas serenas.