Thursday, November 03, 2005

A Música Pop Mística






Aqui fica o texto de uma Conferência Multimédia, efectuada no dia 26 de Março de 2001, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, quando eu leccionava LITERATURA INGLESA MEDIEVAL Lembro que o texto foi escrito para acompanhar os temas musicais assinalados. Sem a audição dos mesmos, esta “viagem” não faz sentido.


A MÚSICA POP MÍSTICA DE INSPIRAÇÃO MEDIEVAL


A última década do século e do milénio trouxe para a música pop duas das grandes orientações da cultura ocidental contemporânea: a globalização, representada pela world-music e o misticismo, representado pela new-age music .
No ano de 1991 um grupo denominado ENIGMA combinou estas duas tendências no trabalho intitulado MCMXCa.D. : o tradicional mistura-se com o moderno e o profano com o sagrado. Parece-nos lógico começar com ele esta nossa viagem musical por alguns dos reflexos da Idade Média nos nossos dias, dado que constituiu o início da corrente que designamos por pop mística de inspiração medieval. Embora com variantes, trata-se de música feita para relaxar, dançar ou cantar, na qual o melhor exemplo de música sacra do medievo, o canto gregoriano ( o coral masculino em uníssono, com vocalisos sobre linha melódica única, desenvolvido a partir do Antifonário do Papa Gregório Magno do século VI ) é uma constante indispensável na componente mística que caracteriza estas produções de raiz europeia fortemente internacionalizada. Vejamos então como evoluiu este género de música pop:


Faixa 1: The Voice of Enigma ( texto declamado).


O impacto produzido na opinião pública por este trabalho deve-se em grande parte a uma conjugação que é vista tradicionalmente no mundo cristianizado como próxima da depravação: o canto gregoriano, clerical por excelência, e o erotismo ao estilo do tema "Je t'aime, moi non plus", um grande sucesso de Jane Birkin, que marcou a revolução sexual dos anos 70 em França. Talvez se entenda melhor esta mistura se pensarmos na filosofia tântrica, em que o sexo é considerado um sacramento e ritualmente acompanhado por música. Afinal, o interesse pelas religiões orientais foi uma das características da cultura pop:

Faixa 2: The Principles of Lust ( Part I - Sadness).


Outro elemento inspirado na Idade média é o uso de títulos e letras em latim, embora a língua comum a todas estas obras seja o universal inglês. Aparecem também cantos litúrgicos, como o Kyrie :

Faixa 6: Mea Culpa.

O grupo ENIGMA prosseguiu a sua carreira com produções cada vez mais ligadas à new-age, tendo abandonado a componente medieval quase integralmente.

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Na sequência do sucesso dos ENIGMA surgiram outros grupos, como os ERA, com dois cds que bem poderiam ser um cd duplo, de tal forma o segundo é a continuação do primeiro. Este projecto caracteriza-se especificamente pela escolha dos Cátaros como tema inspirador. Assinale-se que esta heresia de origem francesa teve forte implantação sobretudo no século XII. Pautava-se pela defesa do voto de pobreza, do comportamento puritano e da rejeição de hierarquias. A perseguição a que foram sujeitos converteu-os em personagens de misteriosas lendas.

No trabalho de 1996, intitulado ERA, aparecem coros mistos sem vocalisos gregorianos e solistas eruditos e modernos de ambos os sexos, bem como letras em italiano antigo. Salientamos a força e solenidade de uma marcha dos Cátaros:

Faixa 6: Enae Volare Mezzo;

e um responsório para solista feminina (contralto):

Faixa 5: Avemano.

No cd de 2000, intitulado ERA 2, sob o motto cátaro "I' ll save you from yourself...", distingue-se um tema em ritmo rock cantado em inglês, acompanhado por coral polifónico em latim:

Faixa 9: Miserere Mani.

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Ainda dentro desta linha, mas com coro apenas masculino, apareceu o grupo alemão LESIEM no final do ano 2000 com MYSTIC SPIRIT VOICES. Distinguimos um hino litúrgico rock, em tons de dance-music , de alegria contagiante :

Faixa 11: Veni Creator Spiritus;

o reencontro com a tradição dos poderosos coros germânicos, reunidos num tema a fazer lembrar CARMINA BURANA de Carl Orff, ela própria uma repescagem contemporânea da Idade Média:

Faixa 14: In Taberna Mori;

e a junção da componente norte-africana, tanto na música como no canto folclórico do solista masculino, que recorda os anos de tolerância entre o cristianismo e a civilização medieval que se lhe opunha: o Islão, que chegou à Europa a partir da África:

Faixa 6: Indalo.

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Um caso à parte é o grupo JANUS, que em 1998 produziu AGNUS DEI 2000. Trata-se de uma obra para tenor solo, com a participação de um coro infantil na última faixa, bastante próxima das oratórias anglicanas. No entanto, existem dois temas a merecer a atenção do medievalista. Um salmo de evidente influência hebraica:

Faixa 4: Jerusalem;

e uma cantiga de trovador, embora não verse a temática amorosa mas a demanda espiritual:

Faixa 3: Traveller.

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Finalmente, teria de surgir o uso do canto gregoriano apenas enquanto modo interpretativo de temas modernos e profanos. Ainda no ano 2000 apareceu o grupo GREGORIAN e o cd MASTERS OF CHANT. Neste caso, acentua-se o misticismo onde ele não era explícito mas latente. Tal como ENIGMA, sacralizaram o amor carnal. Mais especificamente, conferiram intemporalidade a temas efémeros por natureza:

Faixa 6: Nothing Else Matters by Metallica.

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Tal como GREGORIAN, também o projecto VISION, de 1994, contou com gravações ao vivo em igrejas antigas de modo a conferir mais autenticidade ao som captado. Da mesma forma que em ENIGMA aparecem vozes de monges, aqui surge a de uma freira a interpretar a música da abadessa alemã Hildegard Von Bingen. Num processo oposto ao de GREGORIAN, este projecto visou modernizar música medieval genuína do século XII. Recorrendo a duas solistas sopranos e a coros femininos, as orquestrações pop levaram a devoção religiosa para as pistas de dança das discotecas:

Faixa 3: Vision (O Euchari In Leta Via).

O segundo trabalho, de 1995, intitulado ILLUMINATION é a continuação do anterior, podendo por isso este projecto também ser editado em cd duplo. Existe uma maior liberdade vocal e aproximação à new-age music :

Faixa 3: Tree of Wonders (O Vos Felices Radices)/[ Sanctus ].

NOTA: Os cds incluem os textos originais em latim com tradução em inglês, bem como um estudo bio-bibliográfico de Hildegard Von Bingen.

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ADIEMUS é um projecto new-age, que faz misturas de world-music e de várias línguas tendo por objectivo a criação de sonoridades que se pretendem universais. O primeiro trabalho tem por título SONGS OF SANCTUARY e foi publicado em 1995. O tema é o misticismo. As vozes são também exclusivamente femininas. Salientamos uma oração/meditação com solista contralto e acompanhamento por soprano a fazer lembrar Hildegard Von Bingen:

Faixa 4: Cantus Insolitus;

e a mistura do trovadoresco e do litúrgico, do coro do folclore africano e da sobriedade da solista, no que soa como um hino à criação:

Faixa 1: Adiemus.

Os restantes trabalhos deste grupo reportam-se a outras temáticas que nada têm a ver com a Idade Média.

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Para terminar, salientamos o projecto KHEOPS. No primeiro cd, PYRAMIDIX, de 1998, é dado grande relevo à música tradicional das mais variadas proveniências ( inclui até um fado). Escolhemos um canto litúrgico em ritmo brasileiro, algures entre o samba e a bossa nova, justaposto ao canto gregoriano:

Faixa 9: Domine.

O segundo trabalho, BALKANS, de 2000, é inteiramente dedicado à música da zona das Balcãs, o oriente europeu onde existe um enorme cruzamento de culturas. Escolhemos uma elegia cantada por solista do folclore, acompanhada pelo grito da carpideira e pelo coro gregoriano:

Faixa 11: Tribute to the Innocent.


CONCLUSÃO: Através desta música pop feita para consumir despretensiosamente, o homem moderno demonstra que reconhece a ligação ao sagrado como a principal herança da Idade Média. A evolução do mundo ocidental permite que possamos vislumbrar reflexos desse legado na totalidade do mundo e na profundidade do sentimento amoroso. Actualmente a música sacra medieval deixou de representar apenas o cristianismo para se assumir como símbolo da perspectiva global da religiosidade e da drástica humanização da divindade. Esta atitude mística individual face ao quotidiano (própria do fim do século e do milénio e da preparação do novo século e do novo milénio) embora negada por muitos, é cada vez mais evidente. Na viagem que empreendemos, através de escolhas pessoais das diversas combinações musicais existentes, foi nosso objectivo provar este ponto de vista. Ficamos com alguma expectativa em relação às próximas produções deste género. Por enquanto, KHEOPS é o nosso ponto de chegada :

Faixa 1: Long Ago ( texto declamado).

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