Aqui fica o texto integral da minha participação, no dia 3 de Junho de 2000, no Colóquio Internacional: Fernando Pessoa, o Esoterismo e Aleister Crowley, organizado pela Câmara Municipal de Cascais. Não houve publicação das Actas deste Encontro. Ficou a placa na Boca do Inferno como recordação.
O NÓ CROWLEY: REFLEXÕES SOBRE O
ESTADO ACTUAL DE UMA HERANÇA CONTURBADA
A força e a liberdade nascidas do vigor e da plenitude
do espírito demonstram-se pelo cepticismo.[...]
Mas [...]os fanáticos são pitorescos, e a humanidade
prefere ver atitudes a ouvir razões...
Friedrich Nietzsche, O Anticristo
Depois dos meus dois artigos sobre o relacionamento entre Crowley e Pessoa, não fazia parte dos meus planos voltar ao assunto. Mas eis que surge este colóquio acerca do episódio da Boca do Inferno, incluindo até a inauguração de uma placa comemorativa. Devo confessar que tal reconhecimento público é para mim algo de totalmente inesperado, pois os estudiosos pessoanos sempre minimizaram a importância do referido encontro. Além disso, num país com tão altas percentagens de catolicismo e iliteracia, como é ainda hoje Portugal, a placa arrisca-se a só ser entendida por uma elite extremamente reduzida.
Quando publiquei o meu estudo, em Setembro de 1997, tive como principal objectivo clarificar um assunto que vivia envolto em sofismas, bem como abrir hipóteses para posterior investigação de outros especialistas. Acontece que os meios universitários teimam em não reconhecer a validade científica de estudos sobre temas esotéricos e místicos, uns porque os consideram puras mistificações, outros porque não se conseguem libertar da visão tradicional de que são matérias intocáveis que pertencem ao domínio do oculto ou do sagrado. Folgo em constatar que desde o ano passado têm decorrido vários seminários e cursos livres, nomeadamente aqueles que o Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da FCSH tem levado a cabo, sob a direcção do Dr. José Manuel Anes, que também coordena este colóquio e a quem agradeço o convite para nele participar.
Assim, pareceu-me pertinente formular a questão chave em relação à nossa presença aqui hoje: que estamos afinal a comemorar? O encontro de dois excêntricos? Um ritual mágico? Uma iniciação falhada? Uma amizade perigosa? Uma brincadeira de mau gosto? Mais ainda, o que ficou de tudo isso para a posteridade? Haverá algo de importante a reter?
Tenho para mim que o ponto fulcral do referido episódio tem a ver sobretudo com Aleister Crowley. É a visita dele, a sua própria personalidade e má fama que vêm perturbar o retraído universo pessoano. Sabemos que foi Pessoa quem procurou Crowley e não o oposto e que toda a trama, fosse ela qual fosse, parece ter sido planeada e executada a dois. No entanto, Pessoa, como em tantas outras ocasiões, também aqui se desvaneceu face ao figurão crowleyano, e hoje é o mago quem continua a produzir grandes inquietações, em Portugal e no mundo em geral.
O legado de Crowley é composto por um enorme emaranhado de enganos, divulgados por quem não conhece ou não quer conhecer as suas obras e deseja aproveitar-se da sua notoriedade conforme os respectivos interesses, muitos considerando-se seguidores daquilo que ele nunca praticou e outros usando-o como um dos mais conhecidos bodes expiatórios do século XX: enquanto incarnação do Mal — drogado, depravado, satânico, nazi, louco e charlatão — a sua influência nefasta abrange quase todos os domínios da sociedade moderna e serve para expiar os medos e culpas de um mundo em rápida mudança.
Porém, ao contrário do nó Górdio, o nó Crowley tem solução: o estudo, a divulgação e o ensino, pois só a sabedoria faz a humanidade evoluir. Com o passar do tempo tornar-se-á finalmente visível quem ele era de facto: um precursor da revelação da verdade oculta da natureza, da sociedade e da espiritualidade humanas.
Deste modo, a minha contribuição para a resposta à pergunta supra mencionada será tentar clarificar as pontas que constituem o nó em que se transformou a herança de Aleister Crowley .
1.Sexo, Drogas ( e Rock'n'roll):
Quem consulte a Internet, descobrirá que o website do rockstar Marilyn Manson dá pelo nome de "Abbey of Thelema". Não é caso único, e não deve o seu nome a Rabelais, mas a Crowley. Há um número considerável de artistas que se dizem discípulos do mago, sobretudo músicos que se auto-intitulam "satânicos". Mesmo os estudiosos da geração de 60 e do fenómeno "underground" confundem satanismo com dionisismo e não separam os escritos de Crowley das posteriores interpretações dos seus supostos seguidores, onde se salienta a figura de Kenneth Anger[1].
Estou bastante à vontade ao apontar as ligações existentes entre Crowley e o rock, porque foi por causa da música dos Led Zeppelin que o descobri, e posso garantir que é bem mais fácil encontrar a sua influência naqueles que não a assumem , ou que até a desconhecem, do que nos tão falados satanistas, como o famoso Marilyn Manson. Dentro do mundo rock, penso que só Jimmy Page (guitarrista dos Led Zeppelin) pode ser considerado seu discípulo, e mesmo ele afirma não seguir todos os ensinamentos do mago.
É também óbvio que a revolução dos anos 60 não é mais do que uma libertação dionisíaca em toda a sua dimensão: pretendia-se alcançar o êxtase, a alegria suprema, através do sexo, da música, da dança, e com a ajuda de estupefacientes (álcool e drogas). Crowley restaurou parcialmente este culto milenar, mas é manifesto exagero circunscrever as poderosas tradições dionisíacas à acção do mago. Muito devido à "pop-revolution", na actualidade o sexo quase deixou de ser tabu e os homossexuais podem mesmo reivindicar direitos, mas as drogas são um problema cada vez maior: ainda não aprendemos a lidar com elas e a utilizá-las correctamente, um objectivo que o mago perseguiu com pouco sucesso. Saliente-se que no passado mês de Abril, em Lisboa, durante o Congresso dos Jovens Filósofos, numa conferência intitulada "Euforia Química e Dignidade Humana", o sociólogo espanhol Antonio Escohotado propôs hipóteses para o uso das drogas e do álcool dentro do universo de transgressão dionisíaca.
Também não devemos ignorar o interesse da geração de 60 pelo esoterismo, magia e orientalismo, mas é um fenómeno que se integra na já mencionada procura de autenticidade e libertação. A repressão moral, religiosa, racionalista e materialista do Ocidente separou o homem das forças primordiais da natureza. Crowley preconizava a união de Shiva com Dionísio[2], nomeadamente através da prática da magia sexual, uma forma de tantra em que se procura o controlo do êxtase pela vontade —" Love under Will" — com o objectivo de tocar a transcendência. O próprio cognome iniciático "TO MEGA THERION" ("A GRANDE BESTA") prende-se com o lado animal ( tido como o mais profundo e reprimido e, logo, o mais autêntico da natureza humana ) do culto solar/fálico de Shiva e Dionísio. O mago aprendera com os mestres orientais que a maior força a que o homem tem acesso é a energia sexual — "Love is the Law" — e que ela liga todos os seres em harmonia.
Acontece que a música pop manteve a tradição ocidental do amor romântico, o amor-paixão, que é de raiz dionisíaca, embora a sabedoria oriental advirta contra os perigos dos sentimentos e das emoções. As duas principais tentativas de controlo do amor no Ocidente expressaram-se na Antiguidade Clássica em A Arte de Amar de Ovídio e na sua adaptação aos ideais cristãos na Idade Média com as 31 regras do amor cortês compiladas por Andreas Capellanus em De Amore Libri Tre . Mas o amor como força emocional absoluta, escravizadora e trágica prevaleceu, configurado no poderosíssimo mito de Tristão e Isolda, tão bem explicado por Denis de Rougemont em L'Amour et l'Occident . Em consequência, a tentativa de controlar o que se deseja porque é intrinsecamente incontrolável, parece aos olhos ocidentais um paradoxo insolúvel: LOVE para o mago era AMOR ou apenas energia sexual? Amava ele as suas "mulheres escarlates" ou só necessitava delas, visto que segundo as doutrinas tântricas a mulher é quem lidera os rituais? Afinal era o mago um viciado no amor ou um cientista do sexo?
Por muitas semelhanças que haja entre as duas divindades e respectivos cultos, penso poder afirmar que Shiva não destronou Dionísio na procura e vivência do êxtase no Ocidente, não sendo justo imputar à influência do mago as situações de descontrolo daí decorrentes, próprias do furor dionisíaco. Obviamente reporto-me apenas à faceta de Shiva-Amante, passivo e controlado, e não à de Shiva-Destruidor, cuja abrangência ultrapassa o contexto específico deste trabalho. A juventude ocidental ignora o que os antigos sabiam — Dionísio é uma divindade muito caprichosa. No entanto, a evolução não pára. Uma revista de espectáculos publicada esta semana ( CITY ) titula na capa as mais recentes opiniões do rockstar Sting : "Sexo? Tântrico. Drogas? Despenalizadas. Rock'n'roll? Sempre!"
2.Fascismo, Nazismo e Totalitarismo:
Vários estudiosos, em especial Marco Pasi e Giorgio Galli, têm vindo a abordar a ideologia política de Crowley e a estabelecer ligações entre esta e a ascensão do fascismo e do nazismo. Existem três factos irrefutáveis a ter em conta: Crowley foi expulso de Itália por Mussolini; as sociedades secretas foram proibidas por Hitler antes da guerra; e o mago "ajudou" esotericamente Churchill durante o conflito mundial (e até a Naval Intelligence o esclarecer, não haverá certezas sobre a sua possível actividade como espião ao serviço de Sua Majestade Britânica).
Também é verdade que convidou Lenine e Trotsky para uma visita à Abadia de Cefalú, na Sicília. Enquanto destes não teve resposta, dirigindo a O.T.O. na Alemanha, não me surpreende que contactasse os principais líderes nazis, inclusive Hitler. O que parece ter acontecido com Crowley foi o mesmo que ocorreu com Wagner e Nietzsche: os nazis manipularam segundo as suas conveniências as respectivas obras. É fácil verificar que não existe nada nos seus escritos que aponte para a crença numa superioridade de raça, de sexo, de fé ou de nação, mas não há dúvida de que ele considerava ser sua missão fazer chegar aos poderosos de então a lei do novo Aeon:
Nothing can save the world but the universal acceptance of the law of Thelema as sole and sufficient base of conduct.Its truth is self-evident. In its way it is the logical climax of the idea of democracy. Yet at the same time it is the climax of aristocracy by asserting each individual equally to be the centre of the universe [3].
Pessoa tinha uma mentalidade milenarista, reflectida na esperança do Encoberto, do homem providencial, do Rei de outrora e do futuro. Crowley tinha uma visão meritocrática, preconizando uma sociedade que possibilitasse o desenvolvimento das potencialidades de cada indivíduo— "Do what you will"— afinal nada que esteja muito longe da teoria aristotélica da potência e do acto. Não consigo compreender como se acusa o mago de defender regimes totalitários, quando Telesma contém em si a máxima liberdade humana. Por outro lado, ele não suportaria sequer pertencer a uma organização política: indomável por natureza, nem nas sociedades esotéricas permanecia muito tempo.
O que nem Crowley nem Pessoa apreciariam minimamente se ainda vivessem seria o estado de "sub-democracia"[4] em que o Ocidente se encontra na actualidade, onde os interesses das massas esmagam os direitos do indivíduo, patrocinando em todo o mundo "uma ditadura sem ditador"[5], uma nova ordem internacional conhecida por globalização, imposta pela presente potência imperial, os Estados Unidos da América.
De facto, trata-se apenas da globalização económica, i.e., da imposição do capitalismo multinacional: a internet, o turismo, a comida, a publicidade, a televisão, o entretenimento, a moda, o livre comércio enfim, já que uma verdadeira globalização implicaria a total miscigenação de raças e culturas, e nessa utopia ninguém parece interessado.
Onde antes se impunha a cruz pela espada, hoje o colonialismo laico impõe através da ONU a nova salvação do terceiro mundo, a pastilha dois-em-um " democracia e direitos humanos", como se de uma infalível panaceia se tratasse. Sem instituições fortes não existe democracia, apenas a aparência formal da mesma. Um pouco por todo o lado, ou há fraudes eleitorais ou o eleito usa o seu poder para eliminar os adversários e garantir a vitória "democrática" nas eleições seguintes. Também sem desenvolvimento não há maneira de fazer respeitar os direitos humanos, e tudo indica que o livre comércio mundial não debelará a pobreza, quase escravidão, dos trabalhadores do terceiro mundo e só piorará a situação dos do primeiro, pois tanto o FMI quanto o Banco Mundial preferem ignorar o abismo que separa estes dois mundos.
Esta realidade virtual em que vivemos inventou até guerras limpas, em nome da intervenção humanitária, onde os soldados não morrem, os civis não se vêem morrer e não há vencedores nem vencidos. Este novo colonialismo tem também os seus missionários, que sob a capa das boas intenções pensam apenas no rendimento próprio, ou não vivêssemos na era do triunfo do dinheiro: ONGs transformadas em turismo humanitário, ecologistas financiados por empresas florestais e de tecnologia do ambiente, protectoras dos animais pagas por empresas de produtos para animais domésticos, etc. É a vitória dos bem-pensantes, das virtudes do politicamente correcto, esse fruto do "imundo protestantismo" que Nietzsche denunciava como sendo uma mistura de moralidade hipócrita e materialismo, a mesma que Crowley detestou quando viveu nos E.U.A. Não admira que o mago se tenha transformado também num símbolo do politicamente incorrecto.
O verdadeiro património do mundo é o ser humano, cada vez mais esquecido e longe de cumprir a sua potencialidade. Mas há quem pense que o futuro próximo poderá mudar, devido ao facto de a nova economia assentar no talento individual. Ian Angell, famoso especialista em Informática, expõe em The New Barbarian Manifesto [6] o que pode vir a ser o lado positivo da globalização: na era da informação, que agora começa, cada comunidade terá de investir no mérito dos seus melhores para competir com todas as outras. Será porventura a melhor ocasião até à data para aplicar a teoria política telesmita.
3. Religião, Magia e Misticismo:
No meu artigo anterior dei especial ênfase a este ponto, mas penso que não será de mais insistir, dada a fama universal de que goza tal afirmação, que é completamente falso dizer-se que Crowley era satanista. Dentro do panteão das divindades que ele reconhecia, prestava culto sobretudo a Javé, a Amon-Rá e a Pã, nunca a Satã (aliás um anjo e não um deus) embora como mago "enochiano" tivesse de saber invocar espíritos, dos anjos aos elementais. Há também quem sustente que era ateu, por causa da afirmação do conceito de "super-homem" em The Book of the Law e do cepticismo científico com que abordava a espiritualidade e o oculto. No hino da sua Missa Gnóstica, um poema de grande beleza na tradição dos "metaphysical poets", dá-nos a conhecer a sua fé e misticismo:
Thou who art I, beyond all I am,
Who hast no nature and no name,
Who art, when all but thou are gone,
Thou, centre and secret of the Sun,
Thou, hidden spring of all things known
And unknown, Thou aloof, alone,
Thou, the true fire within the reed
Brooding and breeding, source and seed
Of life, love,liberty and light,
Thou beyond speech and beyond sight,
Thee I invoke, my faint fresh fire
Kindling as mine intents aspire.
Thee I invoke, abiding one,
Thee, centre and secret of the Sun,
And that most holy mystery
Of which the vehicle am I...
Considerar que, pelo facto de se opor ao cristianismo, Crowley servia o Diabo revela o mesmo primarismo que rotular Pessoa de anticristão quando ele era sim anticatólico e adepto do esoterismo cristão [7]. Tendo em conta que depois de Nietzsche poucas novidades surgiram no anticristianismo, uma das principais conclusões a que A.C. chegou após longos estudos foi que a moralidade, a cultura e a sociedade ocidentais tinham sido edificadas sobre uma invenção, uma falsidade histórica: o Cristo dos Evangelhos nunca tinha existido, sendo um resultado da adaptação pelos judeus helenísticos de vários cultos muito fortes na época, ligados ao deus sacrificial ( Dionísio, Osíris e Mitra) e ao filho de deus e/ou rei divino (Alexandre Magno e sucessores e os imperadores romanos). Também neste aspecto, só nas últimas décadas, com a dessacralização dos textos bíblicos, começaram a aparecer as confirmações dessa teoria, nas obras de Burton Mack (The Lost Gospel: the book of Q & Christian Origins , de 1994 e Who wrote the New Testament? : the making of the Christian Myth , de1995) e de Maurice Sachot (L'Invention du Christ , de 1998) entre muitos outros. Concomitantemente, os estudos sobre o Antigo Testamento também avançam no sentido de desvendar a história que os textos míticos e simbólicos escondem, apontando cada vez mais para a origem egípcia (culto do deus Aton) do monoteísmo judaico[8].
Qualquer observador atento da actualidade tem tendência a afirmar que o mundo vive no materialismo e afastado das religiões. Nada mais longe da verdade. Se no Ocidente as igrejas tradicionais estão em crise, proliferam por outro lado as seitas cristãs. Não será por acaso que o Papa está tão interessado em transformar Fátima numa espécie de Meca do catolicismo. Como portugueses, devemos empenharmo-nos no estudo do fenómeno religioso mais importante que temos [9]. Não se pode ignorar que mais de 90% da população diz-se católica, embora só metade seja praticante e tradicionalista. Em consequência, no último dia 13 de Maio ouviram-se coisas espantosas em Fátima: enquanto uns declaravam ser o famoso 3º. segredo a prova de que Deus é participante activo na história da humanidade, o próprio Papa fazia saber que o grande perigo para o mundo vem do ateísmo.
Deve o Papa ter-se esquecido de que o Islão cresce no terceiro mundo na proporção directa da pobreza e da desastrosa globalização ocidental e que os fundamentalistas são cada vez mais numerosos, assumindo-se muitas vezes como a mais forte reacção cultural ao novo colonialismo. Pior ainda, muitos destes movimentos são apoiados pelas nações cristãs em nome do direito à autodeterminação das minorias étnicas, conduzindo a numerosos conflitos, de grande conveniência para os exportadores de armas. Devemos, pois, estar atentos às teocracias, que são o maior perigo para a democracia e a liberdade, e não o ateísmo. Aliás, os ateus tornaram-se numa minoria oprimida pelos crentes, como bem demonstrou a Sociedade Pagã Norueguesa (à qual só teria ficado bem não confundir paganismo com ateísmo) ao reclamar o direito de instalação de altifalantes na sua sede, próxima de uma mesquita e de duas igrejas, apelando ao laicismo e à liberdade de não ter religião. Nos textos a recitar lembrariam que Deus é a maior invenção do homem e que é uma estupidez continuar a arranjar tantos problemas por causa de uma fantasia. Embora tenham o direito de reclamar igualdade de tratamento, é provável que a bem da ordem pública não consigam o seu intento. Como se sabe, a tolerância religiosa tem o pavio curto [10].
No entanto, até os ateus são parte activa nos rituais da nova religião laica: refiro-me aos media, cujo poder mereceu o epíteto de "The second God"[11]. A sociedade secularizou-se, relegou a divindade para segundo plano, mas nada pôde fazer quanto às pulsões ancestrais que ligam o indivíduo à comunidade e esta ao universo — a ritualização ajuda a suportar as agruras da vida. Assim, transferiu o poder dos sacerdotes para os media, pois são eles que ligam o indivíduo ao mundo, fazendo-o sentir-se parte de uma comunidade global. Os sacerdotes são reconhecidos pela comunidade como podendo contactar com a divindade e assegurar o seu auxílio na solução de crises. Não é de admirar que o processo noticioso esteja cada vez mais ritualizado: invocações, perdões, confissões, consagrações e, sobretudo, vitimizações.
O psiquiatra René Girard sustenta que na base da religião se encontra o "mecanismo da vitimização", que tem na sua origem "the universal human tendency to transfer anxiety and conflict on to arbitrary victims"[12]. Este processo a que George Frazer chamou "transference of evil"[13] é comum a todas as culturas e vulgarmente conhecido por "bode expiatório". A este tem de ser reconhecido algum valor ou poder, para o seu sacrifício ser aceite pela divindade, e cumprirá a sua função tanto melhor quanto mais culpas a comunidade encontrar nele, embora seja uma vítima e, portanto, inocente.
Após o ritual, a comunidade reconcilia-se com a vítima, pois acredita que foi por causa do seu sacrifício que a divindade perdoou as culpas dos indivíduos que a constituem. O sensacionalismo, a perseguição, os juízos de intenções, as beatificações e diabolizações que todos os dias vemos nos media correspondem à transferência do mecanismo de vitimização do domínio do sagrado para o do profano. Os rituais religiosos são também detectáveis nos grandes desportos de massas, em especial no futebol.
Como se vê, os estudos acerca da religião são cada vez mais pertinentes. Nos últimos tempos tenho estado a efectuar um trabalho relacionado com a ilha de Java e não me espantou nada constatar que o conhecimento do misticismo javanês — "kebatinan"[14] —poderia ter ajudado muito nas difíceis relações entre Portugal e a Indonésia. Fenómeno idêntico se passa com os países árabes em particular[15] e muçulmanos em geral, dado que o Ocidente continua a não querer conhecer o Islão.
Neste contexto, muito positivo é o aparecimento de um novo género de romance, chamemos-lhe de "formação religiosa", com o objectivo de dar a conhecer as religiões de uma forma atraente: refiro-me a Le Voyage de Théo de Catherine Clément, em 1997, e a Le roi, le sage et le bouffon de Shafique Kheshavjee, em 1998. E o que podemos dizer do extraordinário êxito da série de literatura juvenil sobre Harry Potter, o aprendiz de mago? Nos media e na publicidade a palavra magia é usada a toda a hora e quase sempre com conotação positiva: trata-se do reconhecimento de que o ser humano tem o poder de alcançar a perfeição. Por exemplo, a Ayrton Senna chamavam-lhe " o mago do volante".
Por tudo o que ficou dito, penso ter demonstrado que a dimensão espiritual do homem está presente de muitas formas no nosso quotidiano. Se hoje é fácil adquirir todo o tipo de produtos ligados ao esoterismo, às práticas alquímicas, mágicas e religiosas, muita desta liberalização do sagrado se deve à postura prometaica de Aleister Crowley. À medida que este conhecimento se foi tornando acessível, ele assumiu definitivamente o papel de bode expiatório dos ignorantes, dos preconceituosos e dos supersticiosos, apenas por ter sido o primeiro a tentar transformar o oculto em visível e a magia em ciência.
4. Génio, Loucura e Charlatanice:
Não duvido que Pessoa reconhecia em Crowley um mestre com quem tinha algo a aprender. Ambos eram gnósticos e heteronímicos e, como acontece quase sempre com os génios, a sociedade considerava-os excêntricos ou loucos. Crowley, para além de todo o resto, também foi acusado de charlatanice, e houve até quem aventasse a hipótese de ele ter enganado Pessoa. Porém, todos os que o conheceram sempre confirmaram o seu total empenho em tudo o que fazia. Errava muitas vezes, mas dava sempre o seu melhor. Se recorria à provocação era para atacar a hipocrisia e se usava a mistificação era para se defender da ignorância alheia.
Tanto a provocação quanto a mistificação ocorreram no caso da Boca do Inferno, mas também houve uma terceira contingência: um falhanço em toda a linha. Tenho por certo que o equinócio de Setembro de 1930 foi o ponto de partida para uma nova vida que nenhum deles conseguiu levar avante. Crowley partiu para a Alemanha com a missão de ensinar a lei de Telesma e o que se deu foi o oposto: a ascensão do nazismo. Pessoa confessava na última carta que se conhece para o mago, datada de 10/2/31,[16] que se encontrava "sob um eclipse astrológico" e em "estagnação" ( longe da "taquipsiquia"[17] — aceleração mental — que caracterizava o seu processo criativo) e sem grandes possibilidades de arranjar investidores para o tal projecto editorial (talvez de temática esotérica) que nunca chegou a acontecer.
Concluo, voltando à pergunta do início, cuja resposta coloquei como objectivo desta comunicação: que estamos afinal a comemorar aqui hoje? Esperar-se-ia qualquer coisa de extraordinário como consequência do encontro entre dois génios, mas dele surgiu o mais universal de todos os desafios humanos: ousar mudar, ousar ganhar ou perder. A Boca do Inferno foi apenas a ousadia de um início e, só por isso, já foi muito. Como escrevia, no século XIV, o poeta inglês do romance de cavalaria Sir Gawain and the Green Knight :
Whether fate be foul or fair,
Why falter I or fear?
What should man do but dare?
_____________________________________
NOTA FINAL
Devido ao interesse suscitado pelo meu estudo "Um excêntrico encontro anglo-português: Aleister Crowley e Fernando Pessoa ", Lisboa, Revista de Estudos Anglo-Portugueses, nº.6, 1997, desejo acrescentar algumas referências que me chegaram após a sua publicação:
1. Recebi de Manuela Parreira a informação de que " Lhi"( p.113 ) era o " petit-nom " do irmão de Fernando Pessoa. Este facto não altera o interesse do poeta em escrever um "livro" de que o mago tinha conhecimento (V. carta a Crowley de 10/2/31).
2. Alguns leitores questionaram-me acerca da minha interpretação de L.G.P. na mensagem. Concordo com Pessoa quanto a ser um dos nomes pelos quais Crowley tratava Hanni Jaeger , mas não me atrevi a identificar as palavras cujas iniciais são indicadas, até porque não sabemos se são em inglês, em latim ou em alemão. E óbvio que se referem à "boca do Inferno" que Hanni possuía e Crowley tanto apreciava.
3. Victor Belém informou-me que quase todo o diário, a correspondência e os escritos do mago referentes aos últimos meses de 1930 desapareceram do espólio oficial. Há sempre a hipótese de se terem extraviado por venda, roubo ou empréstimo, mas temos de reconhecer ser um pouco estranho que incluam praticamente toda a visita a Portugal e a chegada à Alemanha. E mais uma vez entramos no campo das hipóteses:
A. Crowley tinha algo a esconder e destruiu o que lhe interessava. Só pode ter a ver com ligações ao nazismo, pois ele nunca ocultou nem façanhas nem falhanços. Por tudo o que sei de Crowley, não o creio.
B. Depois de todas as acusações, se ele fez espionagem ou contra- espionagem, é natural que gostasse de se ver reabilitado: a Naval Intelligence não terá concordado e terá destruído os documentos sensíveis, depois da morte do mago e sem a sua autorização.
C. Após a morte de Pessoa, Crowley terá querido manter a criação a quatro dimensões do poeta, da qual ele era protagonista. Para isso era preciso que nunca se soubesse o que aconteceu na sua passagem por Lisboa. Assim, teria de destruir o que poderia solucionar o enigma. Sem estes documentos, o mistério é perfeito: inacabado e, logo, infinito. Um golpe de magia para a posteridade.
NOTA FINAL
Devido ao interesse suscitado pelo meu estudo "Um excêntrico encontro anglo-português: Aleister Crowley e Fernando Pessoa ", Lisboa, Revista de Estudos Anglo-Portugueses, nº.6, 1997, desejo acrescentar algumas referências que me chegaram após a sua publicação:
1. Recebi de Manuela Parreira a informação de que " Lhi"( p.113 ) era o " petit-nom " do irmão de Fernando Pessoa. Este facto não altera o interesse do poeta em escrever um "livro" de que o mago tinha conhecimento (V. carta a Crowley de 10/2/31).
2. Alguns leitores questionaram-me acerca da minha interpretação de L.G.P. na mensagem. Concordo com Pessoa quanto a ser um dos nomes pelos quais Crowley tratava Hanni Jaeger , mas não me atrevi a identificar as palavras cujas iniciais são indicadas, até porque não sabemos se são em inglês, em latim ou em alemão. E óbvio que se referem à "boca do Inferno" que Hanni possuía e Crowley tanto apreciava.
3. Victor Belém informou-me que quase todo o diário, a correspondência e os escritos do mago referentes aos últimos meses de 1930 desapareceram do espólio oficial. Há sempre a hipótese de se terem extraviado por venda, roubo ou empréstimo, mas temos de reconhecer ser um pouco estranho que incluam praticamente toda a visita a Portugal e a chegada à Alemanha. E mais uma vez entramos no campo das hipóteses:
A. Crowley tinha algo a esconder e destruiu o que lhe interessava. Só pode ter a ver com ligações ao nazismo, pois ele nunca ocultou nem façanhas nem falhanços. Por tudo o que sei de Crowley, não o creio.
B. Depois de todas as acusações, se ele fez espionagem ou contra- espionagem, é natural que gostasse de se ver reabilitado: a Naval Intelligence não terá concordado e terá destruído os documentos sensíveis, depois da morte do mago e sem a sua autorização.
C. Após a morte de Pessoa, Crowley terá querido manter a criação a quatro dimensões do poeta, da qual ele era protagonista. Para isso era preciso que nunca se soubesse o que aconteceu na sua passagem por Lisboa. Assim, teria de destruir o que poderia solucionar o enigma. Sem estes documentos, o mistério é perfeito: inacabado e, logo, infinito. Um golpe de magia para a posteridade.
__________________________________
NOTAS:
[1] V. JONES, E.M., Dionysos Rising. The Birth of Cultural Revolution out of the Spirit of Music , 1994.
[2] V. DANIÉLOU, ALAIN, Shiva et Dionysus , 1979.
[3] in The Confessions of A.C. , ed. 1979, p.849.
[4] Termo usado por Alvin Toffler in Rethinking the Future , 1999.
[5] Termo usado por Viviane Forrester in Une Étrange Dictature , 2000.
[6] Cf. The New Barbarian Manifesto. How to Survive the Information Age , 2000.
[7] Cf. Giorgio Galli," Prefazione", p. 8, in PASI, MARCO, Aleister Crowley e la Tentazione della Politica , 1999: "...per quanto riguarda Pessoa, radicalmente anticristiano como Crowley...".
[8] V. GREENBERG, GARY, Bible Myth , 1996, e THOMPSON, THOMAS, The Bible in History. How writers create a Past , 1999.
[9] Existem três obras fundamentais acerca de Fátima: FERREIRA, SEOMARA VEIGA, As Aparições em Portugal dos séculos XIV a XX. Os Emissários do Desconhecido , 1985 (fenómeno extraterrestre/ovni); ESPÍRITO SANTO, MOISÉS, Os mouros fatimidas e as aparições de Fátima, 1995 (tradição islâmica/sufista); e OLIVEIRA; MÁRIO DE (Padre), Fátima nunca mais , 1999 (paganismo celta/Grande Deusa Branca).
[10] Acontecimento divulgado pelas agências noticiosas em 25 de Março de 2000.
[11] Refiro-me à obra de Tony Schwartz, Media: The Second God , de 1983.
[12]in Things Hidden since the foundation of the world , 1987, p.131.Veja-se ainda do mesmo autor The Scapegoat , 1986.
[13] in The Golden Baugh. A Study of Magic and Religion , 1922.
[14]V. MULDER, NIELS, Mysticism in Java. Ideology in Indonesia , 1998.
[15]A ligação entre a política e o Islão é o tema de uma obra árabe do século XIII, traduzida para francês em 1976, sob o título de Le Livre des Ruses .
[16]in Correspondência: 1923-35 , org. Manuela Parreira da Silva, 1999, pp.233-234.
[17]Termo usado por Philippe Brenot in Le génie et la folie.En peinture,musique et literature ,1997, p.148.