Como qualquer outro ano, 2005 tem também as suas efemérides e comemorações. Duas ressaltam: na Primavera comemorou-se a morte de Inês de Castro. No Outono comemora-se o Terramoto de Lisboa. Ambos foram trágicos acontecimentos, o primeiro por responsabilidade humana, o segundo por “acto de Deus”.
Escrevi anteriormente na imprensa que me parece de bastante mau gosto comemorar desastres naturais. Aguardo para verificar se a morbidez tomará conta dos media ou se será dado destaque à reconstrução. Não aconteceu assim com o tsunami asiático, nem assim acontece todos os anos com os nossos fogos. O espectáculo constrói-se na destruição, na dor, no alarme e no medo. A redenção é dada pela culpa alheia, pelo ancestral rito do bode expiatório. O aproveitamento é político e religioso.
Veja-se o recente caso do furacão Katrina : as ONG quase insinuaram que o mesmo foi provocado por Bush (se não foi pela poluição dos EUA e a rejeição do Protocolo de Quioto, foi pela má construção de Nova Orleães); os fanáticos cristãos vislumbraram um castigo pela liberalização do aborto, enquanto os fanáticos islâmicos rejubilaram com a “destruição do Grande Satã”. Acresce que as duas visões da ira (natural ou divina) se tocam naqueles que anseiam pela derrota do Império Americano. Há até quem, por ignorância ou má intenção, se admire com o caos provocado pelo desastre, quando é sempre assim: bastam 24 horas e a civilização evapora-se.
Tudo isto também ocorreu em 1755. Foi precisa a mão de ferro do Marquês de Pombal para restabelecer a ordem, tratar dos vivos, enterrar os mortos e reconstruir. Não foi bonito, mas fez-se. O que não é costume em Portugal. Comemore-se, pois, a acção exemplar.
O Ano Inesiano parece comemorar o oposto. Na verdade, talvez não seja assim. É bonito recordarmos uma jovem vítima da razão de Estado e é romântico recitarmos Camões e passearmos na Quinta das Lágrimas. Até se fizeram desfiles nocturnos e uma série de televisão, acerca dos quais não vou aqui opinar. Mas a questão perdura: que influência tinha Inês na política do reino? Amaria ela mesmo D. Pedro?
Da voz de Inês não reza a história. Nada de muito invulgar numa sociedade medieval patriarcal. Sabemos, sim, da voz de D. Pedro, de todos os actos apaixonados que por ela praticou, da guerra ao pai à perseguição dos carrascos, do casamento secreto à entronização. Inês foi objecto, não foi sujeito. Foi o amor de Pedro que construiu o mito de Inês, não só pelo que está gravado na pedra dos túmulos em Alcobaça, mas também pela governação justiceira que exerceu. O trauma da perda de Inês era visível na obsessão com que controlava o país de lés-a-lés, na frieza com que ditava sentenças (sobretudo em crimes sexuais), mas também na dedicação aos filhos e ao povo. O mesmo rei que obrigara os nobres a prestar vassalagem a uma rainha-cadáver, vinha para a rua dançar com a populaça nas noites quentes de Verão. E o país, por uma vez, funcionou.
“Foram dez anos como nunca se viram em Portugal”, elogiou Fernão Lopes alguns anos mais tarde, afirmação que subscrevo totalmente muitos séculos depois, quando Pedro é uma das figuras mais incompreendidas da história do nosso país. Quando terminei a licenciatura, e após me ter dedicado no ano final a estudar este reinado em pormenor, resolvi empreender uma excursão a Alcobaça para prestar homenagem a Pedro e Inês. Lá deixei uma rosa branca no túmulo dela e outra vermelha no dele (sendo ele Aries, melhor cor não conheço). Só que uma senhora que assistia pasmada a alguém que, para ela, estava a colocar a rosa no local errado, veio gentilmente alertar-me para que o túmulo de Inês era o outro. Escusado será descrever a expressão de estranheza quando verificou que eu não me enganara, afinal. Quem seria aquela ave rara que gostava de um rei "cruel" ? Não que eu aprecie ou tolere a crueldade, embora aqueles tempos fossem de poucas sensibilidades. Prefiro, sim, ser justa com o "justiceiro" e concluir que ele fez muito mais bem do que mal. Por isso, as minhas comemorações não são Inesianas, são Petrinas: do homem que tanto amou e do rei que tão bem governou.
Escrevi anteriormente na imprensa que me parece de bastante mau gosto comemorar desastres naturais. Aguardo para verificar se a morbidez tomará conta dos media ou se será dado destaque à reconstrução. Não aconteceu assim com o tsunami asiático, nem assim acontece todos os anos com os nossos fogos. O espectáculo constrói-se na destruição, na dor, no alarme e no medo. A redenção é dada pela culpa alheia, pelo ancestral rito do bode expiatório. O aproveitamento é político e religioso.
Veja-se o recente caso do furacão Katrina : as ONG quase insinuaram que o mesmo foi provocado por Bush (se não foi pela poluição dos EUA e a rejeição do Protocolo de Quioto, foi pela má construção de Nova Orleães); os fanáticos cristãos vislumbraram um castigo pela liberalização do aborto, enquanto os fanáticos islâmicos rejubilaram com a “destruição do Grande Satã”. Acresce que as duas visões da ira (natural ou divina) se tocam naqueles que anseiam pela derrota do Império Americano. Há até quem, por ignorância ou má intenção, se admire com o caos provocado pelo desastre, quando é sempre assim: bastam 24 horas e a civilização evapora-se.
Tudo isto também ocorreu em 1755. Foi precisa a mão de ferro do Marquês de Pombal para restabelecer a ordem, tratar dos vivos, enterrar os mortos e reconstruir. Não foi bonito, mas fez-se. O que não é costume em Portugal. Comemore-se, pois, a acção exemplar.
O Ano Inesiano parece comemorar o oposto. Na verdade, talvez não seja assim. É bonito recordarmos uma jovem vítima da razão de Estado e é romântico recitarmos Camões e passearmos na Quinta das Lágrimas. Até se fizeram desfiles nocturnos e uma série de televisão, acerca dos quais não vou aqui opinar. Mas a questão perdura: que influência tinha Inês na política do reino? Amaria ela mesmo D. Pedro?
Da voz de Inês não reza a história. Nada de muito invulgar numa sociedade medieval patriarcal. Sabemos, sim, da voz de D. Pedro, de todos os actos apaixonados que por ela praticou, da guerra ao pai à perseguição dos carrascos, do casamento secreto à entronização. Inês foi objecto, não foi sujeito. Foi o amor de Pedro que construiu o mito de Inês, não só pelo que está gravado na pedra dos túmulos em Alcobaça, mas também pela governação justiceira que exerceu. O trauma da perda de Inês era visível na obsessão com que controlava o país de lés-a-lés, na frieza com que ditava sentenças (sobretudo em crimes sexuais), mas também na dedicação aos filhos e ao povo. O mesmo rei que obrigara os nobres a prestar vassalagem a uma rainha-cadáver, vinha para a rua dançar com a populaça nas noites quentes de Verão. E o país, por uma vez, funcionou.
“Foram dez anos como nunca se viram em Portugal”, elogiou Fernão Lopes alguns anos mais tarde, afirmação que subscrevo totalmente muitos séculos depois, quando Pedro é uma das figuras mais incompreendidas da história do nosso país. Quando terminei a licenciatura, e após me ter dedicado no ano final a estudar este reinado em pormenor, resolvi empreender uma excursão a Alcobaça para prestar homenagem a Pedro e Inês. Lá deixei uma rosa branca no túmulo dela e outra vermelha no dele (sendo ele Aries, melhor cor não conheço). Só que uma senhora que assistia pasmada a alguém que, para ela, estava a colocar a rosa no local errado, veio gentilmente alertar-me para que o túmulo de Inês era o outro. Escusado será descrever a expressão de estranheza quando verificou que eu não me enganara, afinal. Quem seria aquela ave rara que gostava de um rei "cruel" ? Não que eu aprecie ou tolere a crueldade, embora aqueles tempos fossem de poucas sensibilidades. Prefiro, sim, ser justa com o "justiceiro" e concluir que ele fez muito mais bem do que mal. Por isso, as minhas comemorações não são Inesianas, são Petrinas: do homem que tanto amou e do rei que tão bem governou.
