Contar histórias é uma actividade fora de moda, por isso tantos filmes e livros são um aborrecimento. Assume-se que um vídeo jogo qualquer entretém muito mais e é sinal de tecnológica modernidade. O gosto pela conversa genuína, em que havia assunto, se escutava e dialogava foi substituído por repetitivos e ocos telefonemas e sms monossilábicos. Já quase não se sabe ler nem escrever; um dia destes nem se saberá falar.Comigo não contem para estas imbecilidades: não tenho (nem quero) telemóvel nem qualquer tipo de jogo informático; uso o e-mail para escrever tal e qual como escrevo à mão. Escrever, ler, narrar e ouvir fazem parte da minha essência: comunicação, memória e imaginação, that’s me, folks!
Há dias atrás, alguém nos CTT me dizia que já não há cartas pessoais, sendo interpretado que uma carta aparentemente pessoal terá sempre uma intenção comercial, dado o trabalho que requer escrevê-la, ou, como se diz por aí, "não há almoços grátis". A que mesquinhez e ignorância chegámos! Pois eu devo ter uma costela de Madre Teresa, porque continuo (e continuarei) a oferecer a "sopa dos pobres". Aprendi de pequenina que quando se dá e não se recebe, quem recebe é que fica em dívida. Por experiência própria, aprendi depois que essas dívidas, quando não se pagam na mesma moeda, pagam-se em géneros (e aí é que são elas). Ergo, não se preocupem, caros leitores, que eu não envio o cobrador do fraque por causa dos meus textos, cuja feliz digestão por vós é o único pagamento que pretendo.
Voltando ao que interessa, nasci com este dom de adorar ouvir e contar histórias ( não confundir com bisbilhotice, que detesto). Ainda não falava bem e já inventava narrativas intermináveis; nas casas grandes escapulia-me para a cozinha, para ao pé das velhas cozinheiras, que me repetiam lenga-lengas, numa melopeia que decorava para recitar a outros. Depois vieram os livros com as histórias infantis, as aventuras juvenis, os heróis vikings, árabes, gregos e romanos, os contos de fadas e as mitologias. Uns ligaram-se aos outros, porque todos têm uma história que vale a pena ser aprendida e recontada, um encanto infinito. É fácil entender a minha escolha de uma especialização literária. Mesmo a tese de mestrado trata de lendas e contos populares, recolhidos por uma inglesa do Romantismo. Na actualidade, um projecto interessante seria escrever a história de alguém que a tenha, porque até as biografias se parecem cada vez mais com estudos sociológicos (aceito propostas, a sério!).
Vem isto tudo a propósito da recente edição portuguesa do DVD de Os Mitos Gregos da autoria do criador de Os Marretas, Jim Henson. A série chama-se apropriadamente The Story Teller, iniciou-se com nove contos tradicionais (de que se espera a edição nacional em breve) e terminou com quatro mitos gregos. O sapiente contador de histórias é acompanhado por um filosófico e patusco cão, uma das muitas criaturas da marca Henson que surgem na série a contracenar com actores de renome, como Derek Jacobi ou John Hurt.
Voltando ao que interessa, nasci com este dom de adorar ouvir e contar histórias ( não confundir com bisbilhotice, que detesto). Ainda não falava bem e já inventava narrativas intermináveis; nas casas grandes escapulia-me para a cozinha, para ao pé das velhas cozinheiras, que me repetiam lenga-lengas, numa melopeia que decorava para recitar a outros. Depois vieram os livros com as histórias infantis, as aventuras juvenis, os heróis vikings, árabes, gregos e romanos, os contos de fadas e as mitologias. Uns ligaram-se aos outros, porque todos têm uma história que vale a pena ser aprendida e recontada, um encanto infinito. É fácil entender a minha escolha de uma especialização literária. Mesmo a tese de mestrado trata de lendas e contos populares, recolhidos por uma inglesa do Romantismo. Na actualidade, um projecto interessante seria escrever a história de alguém que a tenha, porque até as biografias se parecem cada vez mais com estudos sociológicos (aceito propostas, a sério!).
Vem isto tudo a propósito da recente edição portuguesa do DVD de Os Mitos Gregos da autoria do criador de Os Marretas, Jim Henson. A série chama-se apropriadamente The Story Teller, iniciou-se com nove contos tradicionais (de que se espera a edição nacional em breve) e terminou com quatro mitos gregos. O sapiente contador de histórias é acompanhado por um filosófico e patusco cão, uma das muitas criaturas da marca Henson que surgem na série a contracenar com actores de renome, como Derek Jacobi ou John Hurt.
É um prazer seguir estas narrativas e depois explicá-las e recontá-las aos mais pequenos (embora a série seja para maiores de 6 anos, penso que não é aconselhável a menores de 9-10). Todas elas falam das limitações humanas, que é preciso aprender: Dédalo e Ícaro (a genialidade não é hereditária); Perseu e a Gôngora (não se foge do destino); Teseu e o Minotauro (a justiça é supra-humana) e Orfeu e Eurídice (a desconfiança mata).
Em cada ser humano há um contador de histórias a descobrir. Procurem-no e assumam-no sem medo. E não se esqueçam nunca de que tudo começa com: “Era uma vez…”