Wednesday, May 03, 2006

O Amor, segundo Benigni





Vi hoje o último filme de Roberto Benigni, intitulado O Tigre e a Neve. Muito bom na generalidade (recomendo o visionamento) possui, não obstante, uma descompensação entre duas metades distintas.
A segunda parte vem na linha do patético e da quase pieguice de A Vida é Bela. Face à guerra, no campo de prisioneiros ou no hospital, Benigni aposta na superioridade do núcleo familiar, numa postura mais conservadora do que realista. No entanto, merece um forte aplauso o tratamento dado ao secretismo implícito nos trabalhos por amor incondicional.
Muito mais do meu agrado é a primeira parte, um poderoso encómio ao poder do amor: à poesia, porque “são precisas as palavras certas”; à paixão, porque “sem ela estamos mortos”; à Primavera, da balada de Tom Waits, “que não podemos iludir”; e, sobretudo, ao ridículo das acções por amor, o grande tema da cinematografia de Benigni, já desenvolvido no excelente O Monstro. A própria figura de Benigni facilita o entendimento do ridículo (físico, sotaque, gestos, vestuário) que, neste filme, parece apostado em glosar Fernando Pessoa: não há amor sem ridículo (sejam cartas de amor ou serenatas ao luar).
O que provoca o riso (ridículo é sinónimo de risível) é a ausência do racional (tal como nos estados de loucura) dado que o amor é o triunfo da emoção sobre a razão (na Idade Média chamavam-lhe lovesickness). A grande arte de Benigni é conseguir mostrar na tela como só o amor confere seriedade ao riso e, acima de tudo, como o ridículo por causa dele se torna grandioso.
http://www.youtube.com/watch?v=1X3RFmZ3ChI

9 Novembro 2014:
Já perdi a conta às vezes que vi este filme, sendo que hoje foi a derradeira, até à próxima...É um dos filmes da minha vida, disso não tenho dúvidas. Só isso explica a quantidade de posts que escrevi inspirada por ele, muitos ainda online e tantos já apagados, por terem perdido sentido as mensagens que transmitiam.
My favourite things, foi o mote para o início deste blog, que foi mudando, porque teve de mudar, tal como eu mudei, face às negruras da existência. Mas o que é genuíno, comigo não muda. Este filme é o exemplo da autenticidade no que gosto. Por isso continua a ser meu favorito desde a primeira vez que o vi. Oxalá tudo fosse assim na vida!

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