
Há coisas que ainda sinto como um murro no estômago. A morte de Syd Barrett foi uma delas. Dele já disse tudo o que tinha a dizer em artigos anteriores, por ocasião do seu sexagésimo aniversário(cf. Missing Syd e Cavaquinho/Kroncong/Ukelele). É provável que já estivesse então muito doente (diabetes, cancro ?) porque tanto no respeitante ao seu estado de saúde como a outras particularidades da sua vida de eremita, ou quanto à causa de morte ( natural, acidental, suicídio, eutanásia?) a família permanece em silêncio, respeitando o secretismo do homem que tudo teve e tudo abandonou. O mito Syd ficará ainda mais forte se for revelado um legado até agora desconhecido ( pintura, escrita?).
Certo é que à lenda será acrescentada a estranha coincidência de Syd só ter morrido quando o grupo se deu por definitivamente acabado (cf. actuação dos Pink Floyd há um ano, no Live 8, e posteriores declarações) e completo que foi o ciclo de vida da astrologia chinesa (60 anos) e que a sua morte tenha ocorrido quando o Sol se encontrava em exacta oposição ao seu Sol natal (15 graus de Caranguejo, 7 de Julho de 2006 // 15 graus de Capricórnio, 6 de Janeiro de 1946). Fazendo jus ao seu mapa astrológico, Syd teve uma existência marcada pela mistura entre a infantilidade, a camaradagem, a sensibilidade e a imaginação de Caranguejo e a cristalização, a resistência, a honestidade e a indiferença de Capricórnio. Conciliações tormentosas e quase impossíveis, que muito o terão feito sofrer, mesmo não tendo uma doença mental diagnosticada.
Muitas vezes especulei acerca do que o mantinha vivo. Outras tantas vezes me revoltei com a postura dos outros Floyd, sobretudo de Waters, ao cantarem elegias a um vivo, quando o que deveriam ter feito era contactá-lo. Não foi essa a opção e agora tudo acabou finalmente.Terminou a vida de um ser muitissimo especial, o Chosen One de uma geração, vítima do Dark Side, o Skywalker/Vader do Rock, todavia não passível de remissão.
Resta a música. Está lá tudo da primeira vida, do mundo de que ele se retirou, onde foi rejeitado e depois abandonou, para não mais regressar. Sem reivindicar causas, apenas cumprindo a sua natureza. (Requiem).
The World is too much with us; late and soon,
Getting and spending, we lay waste our powers:
Little we see in Nature that is ours;
We have given our hearts away, a sordid boon!
This Sea that bares her bosom to the moon,
The winds that will be howling at all hours
And are up-gather'd now like sleeping flowers,
For this, for everything, we are out of tune;
It moves us not.-Great God! I'd rather be
A pagan suckled in a creed outworn,-
So might I, standing on this pleasant lea,
Have glimpses that would make me less forlorn;
Have sight of Proteus rising from the sea;
Or hear old Triton blow his wreathed horn.
The World is too much with us; late and soon,
Getting and spending, we lay waste our powers:
Little we see in Nature that is ours;
We have given our hearts away, a sordid boon!
This Sea that bares her bosom to the moon,
The winds that will be howling at all hours
And are up-gather'd now like sleeping flowers,
For this, for everything, we are out of tune;
It moves us not.-Great God! I'd rather be
A pagan suckled in a creed outworn,-
So might I, standing on this pleasant lea,
Have glimpses that would make me less forlorn;
Have sight of Proteus rising from the sea;
Or hear old Triton blow his wreathed horn.
William Wordsworth
P.S. 16 de Julho. No Sunday Times de hoje (Culture, p.7) a irmã mais nova de Barrett, Rosemary, dá a sua primeira entrevista em 30 anos. Ela era a pessoa que lhe era mais próxima e as suas afirmações, contrariando a fama de louco, podem ser surpresa para muitos. Não para mim: artistic genius, unique, lovable and solid as a rock. Oh, Roe, tell me something I didn't know... Helás !