Se há algo que é inevitável, é a morte. Sabemos que acontecerá, mais cedo ou mais tarde. Quando as pessoas chegam a uma idade avançada, pensamos que estamos mentalizados para o seu falecimento. Obviamente que com quem nos é muito chegado, é muitíssimo difícil. E há casos mais dramáticos ainda, como o que acontece na minha relação com o meu pai.
Passei toda a vida a vê-lo às portas da morte, doença após doença, sempre mais frágil, mas sempre a sobreviver. Nos últimos tempos, vejo-o a murchar dia após dia, mas nem assim estou minimamente preparada para o perder. Nas derradeiras horas adquiri a certeza de que esteja eu onde estiver e aconteça em que circunstâncias aconteça, não saberei como encarar a sua partida definitiva.
Hoje, dia do pai, felizmente pude abraçá-lo e beijá-lo e dizer-lhe quanto o amo, na cama de hospital onde foi internado de urgência ontem. O coração cansado e fraco começa a ceder. O corpo sofrido e esquelético provavelmente não suportará sequer uma intervenção cirúrgica. A perspectiva de que o fim se aproxima é-me insuportável. Fiz uma data de cenas tristes, ao chorar em público, por não conseguir conter as lágrimas. Não sei de onde vou tirar forças, com tantas infelicidades que me avassalam. "É viver um dia de cada vez e rezar", alguém me disse hoje. Deve ter razão. Que mais se pode fazer? E ele, para se mostrar bem disposto e me consolar, vai de me dizer: "Filha, eu não tenho medo. Já vivi muito". Eu sei que não tens medo, paizinho, mas eu tenho.
Medo é coisa que ele nunca teve. Tem uma capacidade de sofrimento ímpar, alicerçada numa fé inabalável. É o homem mais corajoso, generoso e verdadeiro que conheço. Nunca odiou, nunca traiu, nunca explorou; sempre deu tudo aos outros, mesmo daquilo que lhe fazia falta. Nasceu, viveu e morrerá pobre, mas sempre, sempre digno e honrado. Tenho o maior orgulho no pai que tenho. Serei sempre a menina de três/quatro anos que se escondia todos os dias debaixo do seu roupão, agarrada às suas pernas, enquanto ele e a minha mãe jogavam o jogo de "onde estará a bebé?". Por isso sou egoísta, paizinho, porque preciso da tua protecção e do teu afecto e não quero que me deixes. Por favor, não morras, papá, a tua bebé gosta muito de ti.
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Medo é coisa que ele nunca teve. Tem uma capacidade de sofrimento ímpar, alicerçada numa fé inabalável. É o homem mais corajoso, generoso e verdadeiro que conheço. Nunca odiou, nunca traiu, nunca explorou; sempre deu tudo aos outros, mesmo daquilo que lhe fazia falta. Nasceu, viveu e morrerá pobre, mas sempre, sempre digno e honrado. Tenho o maior orgulho no pai que tenho. Serei sempre a menina de três/quatro anos que se escondia todos os dias debaixo do seu roupão, agarrada às suas pernas, enquanto ele e a minha mãe jogavam o jogo de "onde estará a bebé?". Por isso sou egoísta, paizinho, porque preciso da tua protecção e do teu afecto e não quero que me deixes. Por favor, não morras, papá, a tua bebé gosta muito de ti.
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