Thursday, March 12, 2009

Até sempre, Tólis

.
Chamava-se António Luís, mas sempre o tratámos pelo diminutivo: Tólis. Numa família razoavelmente grande, com numerosos primos, ele foi durante muito tempo o único que eu considerava como tal. Aliás, a partir da época em que viveu em casa dos meus pais, comigo e com o meu irmão, foi para mim um irmão mais novo. Era tímido, como se esperaria de um nativo de Câncer, e fomos amigos verdadeiros, por isso me convidou para madrinha do seu primeiro casamento, incumbência que aceitei apenas por deferência à sua pessoa. Havia respeito mútuo, afinidades políticas e intelectuais e grandes e animadas discussões. Foi sempre um aluno brilhante, licenciou-se em Direito, e várias vezes me disse que eu deveria ter feito o mesmo, porque "uma mulher jurista arranja sempre emprego". Provavelmente tinha razão, mas eu sou uma artista idealista, que se há-de fazer? Era pragmático e trabalhador e foi bem sucedido como Magistrado do Ministério Público, Procurador da República e depois em cargos jurídicos superiores no governo, na UE e no EUROJUST. Morreu hoje, de ataque cardíaco fulminante, durante uma reunião de trabalho. Felizmente, teve uma morte santa. Tinha 47 anos e, tudo indicava, um futuro invejável pela frente. Não o quis assim quem manda no que verdadeiramente interessa. Requiem.

photo©luísa alves

Ao saber da triste notícia, fui aos álbuns de fotografias e revi as fotos de tantas e tantas férias felizes, com ele e a irmã em casa dos meus tios, em Bragança, e seleccionei esta foto ( eu tinha 16 anos e ele 15) de uma das nossas idas ao rio, em pleno Agosto, com quase 40 graus de temperatura ambiente, em que acabámos a fugir de um touro, que nos surgiu à frente num lameiro onde não devíamos ter entrado, mas era o único local fresco, e nós queríamos descansar à sombra. A toalha do Tólis era vermelha e arrastava pelo chão, atraindo o bicho, e eu e a minha prima aos berros, sem ele entender o que dizíamos, e todos a correr dali para fora até à estrada, com as roupas amarfanhadas nos braços e em fato de banho. Nunca me esquecerei do susto e do riso e do tanto que nos divertíamos quando estávamos todos juntos e com outros amigos brigantinos.
Tenho muita pena que na última década nos tivéssemos afastado, devido a questiúnculas próprias das famílias, que bem espremidas não deitam nada, sobretudo perante o que realmente interessa no final: a sensação de que uma vida, que tudo tinha para bem viver muito mais tempo, foi interrompida. Daí esta outra foto da minha pessoa, junto à torre do castelo medieval da cidade, de onde há muito as escadas exteriores desapareceram. Cada vez que olhava para aquilo, sentia que era uma alegoria da própria existência humana: quantos degraus conseguiremos subir? Em que patamar ficaremos? Em que portas entraremos? Quantos chegarão ao topo? Quantos não poderão subir por falta de escadas? É sabido que não publico fotos minhas na Internet. Estas excepções aqui ficam, em memória de um ser humano com quem partilhei muitos momentos felizes. Porque essas recordações são o que resta de nós para a posteridade, quando partimos desta vida.



photo©luísa alves
.
 
23 de Novembro de 2014:
Hora de recordar o Procurador do Caso Freeport no Eurojust, assassinado para ocultar o que só a partir de agora começará a ser destapado.
Era meu primo, como sabem.
A partir daí, a perseguição à minha família não teve fim. Primeiro foi a minha madrinha, a irmã mais velha do meu pai, e depois os meus pais, que sofreram fome,  tortura e humilhações, antes de serem barbaramente mortos.
E eu, perseguida todos os dias, até à data.
O PM de então, preso hoje, é um dos principais responsáveis por tudo isto. Mas nunca esteve só. E os crimes continuaram, contra a minha mãe e a minha pessoa, após ele ter deixado o poder.
A poderosíssima rede criminosa é enorme, transversal à sociedade e internacional. Está agora a começar a ser desfeita. A justiça não pode parar até que todo este pesadelo termine.
Pelas vítimas, vivas e mortas.
Pelo desgraçado país que temos.
E pela sobrevivência do Bem no mundo.
Amen!!!