Tuesday, January 27, 2009

What's in a surname ?

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Saramago tem razão: Hillary Rodham Clinton deveria deixar cair o apelido que o casamento lhe deu e passar a usar apenas o de nascimento. Segundo o escritor Nobel, esta tradição de ter o apelido do marido é uma forma de diminuição de identidade pessoal e de acentuar a submissão que sempre se esperou da mulher. Eu digo ainda mais: é uma patente, um comprovativo de propriedade, instituído pela sociedade patriarcal, obviamente, onde a mulher é primeiro propriedade do pai, depois do marido e no fim dos filhos ou outros parentes masculinos. O facto é que os próprios apelidos têm estrutura patronímica, i.e., foram criados a partir dos nomes próprios dos pais. O meu exemplo: "Alves" significa "filho de Álvaro". Curiosamente, tanto o nome próprio que mais uso quanto os meus dois apelidos são de origem germânica. Os povos peninsulares têm têndencia a esquecer ou a menorizar a importância das suas origens visigodas, suevas e escandinavas.
No caso dos matrimónios, é difícil entender porque persistem nesta tradição, e até gostam dela, as mulheres mais modernas. Se calhar, porque só são mais evoluídas na aparência, o que será, provavelmente, o caso da dita Hillary. De outra forma, como se justifica ela ter aturado ao marido o que aturou, em privado e em público? Seja como for, o problema fundamental é que o sobrenome de família que importa é paterno, não materno. Hillary, como tantas outras mulheres e homens, nem sequer tem o apelido da mãe no nome. E se formos para o Centro e Leste da Europa, aí mantém-se ainda a milenar tradição do segundo nome próprio ser o patronímico do primeiro nome próprio do pai, que virá antes do sobrenome da família do pai, ficando o nome completo sem qualquer apelido referente à mãe (Cf. o nome de Alexandre em:
http://arieslibra.blogspot.com/2006/09/whats-in-name.html ).

Irracional e contra natura é tudo isto. A sociedade devia ser matriarcal, pelo simples facto de que só podemos ter certezas quanto à nossa linhagem materna, não paterna (recomendo aos interessados que investiguem um pouco o ADN mitocondrial); ou como diz o povo: filhos da minha filha, meus netos são; filhos do meu filho, meus netos serão? A resposta da parte dos machos foi aprisionar as fêmeas, tentando assim legitimar a paternidade. É esta a chave da discriminação universal da mulher.
No meu caso, com família materna espanhola, ainda pensei durante algum tempo que fosse dada por lá uma qualquer importância especial às mulheres, por surgirem os apelidos femininos no final do nome, até que percebi que era para facilitar o acesso ao apelido paterno, colocado logo a seguir ao nome próprio. Quando foi preciso ir buscar o apelido da minha mãe para pôr no meu nome, foi o do meu avô que contou, como é das normas. Porém, justiça lhes seja feita, os espanhóis quase sempre usam os dois apelidos.
E, afinal, eu também alinho na tradição, porque uso sempre o apelido paterno, quando é o materno que me diferencia de todas as outras "Luísas Alves". Bem prega Frei Tomás! Mas uma coisa vos garanto: usar apelido de marido é coisa que nunca fiz, nem nunca fui propriedade de ninguém, nem sequer do meu querido pai. Vantagens de não alinhar em casório e família, a mais patriarcal de todas as instituições. Estou em crer que só quando deixar de haver casamento, e a sociedade regresse à estrutura matriarcal, é que haverá verdadeiros sobrenomes femininos, i.e., apelidos de mulher com supremacia.
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