Thursday, January 22, 2009

Lisboa do Equinócio

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Lisboa é a minha cidade. Aqui nasci, aqui tenho vivido. Encontro-lhe muitos defeitos criados pelo homem, mas muitas mais qualidades dadas pela natureza. Desafio alguém a descobrir localização e clima melhores do que os de Lisboa. O rio na foz, recebe-nos de braços abertos; o céu quase sempre límpido; o sol aconchegante; o ar quente do Verão, amaciado pela constante brisa fresca da nortada; a chuva tépida; as cores do arco-íris ao entardecer; o luar e as estrelas das noites translúcidas. Na maioria dos bairros centrais de Lisboa é um prazer caminhar. Pena é que esteja tanta coisa degradada e suja.
Segundo a astrologia, Lisboa é do meu signo, dado que foi conquistada aos mouros em meados de Outubro. Porém, os elementos equinociais do signo de Balança já se encontram na sua história pré-nacionalidade. Comecemos pelo próprio nome, com raiz na palavra "lusa", talvez de influência hitita/troiana (Wilusa era Tróia em hitita), provavelmente ligada ao culto de Dionísio/Luso, divindade de natureza dual, claro/escura, por excelência. Foram os romanos quem posteriormente ligou o nome a Ulisses (Olissipo), não por ter fundado a cidade, mas por aqui ter passado no decorrer da sua odisseia e de onde terá fugido da sufocante paixão de uma rainha meia-mulher/meia-serpente. O Ocidente da Península Ibérica era conhecido pelos gregos como Ofiussa, a terra das serpentes e dos dragões, mas também de magníficos cavalos. Acontece que todos estes animais estão ligados ao mar e ao culto de Poseidon/Neptuno, o grande inimigo de Odisseu/Ulisses. Por outro lado, as serpentes são também sagradas de Dionísio e regidas por Libra. Não há dúvida de que as religiões ctónicas ainda dominavam estas terras, quando as olímpicas já dominavam as outras.
Com a reconquista cristã, trazem os ingleses o primeiro bispo e a veneração de São Jorge, nome com que baptizaram o castelo. Este santo é a derradeira actualização simbólica do triunfo dos cultos solares sobre os lunares, i.e., olímpicos/do céu/patriarcais sobre os ctónicos/da terra/matriarcais: Apolo a matar a piton, Hércules e a hidra ; S. Miguel e o demónio (serpente/dragão); S. Jorge e o dragão.
Todavia, a D. Afonso Henriques este santo estrangeiro não terá agradado muito. O grande santo da Península era Santiago, com sede de culto na mesma Galiza de que ele se queria tornar independente. Restava-lhe encontrar outro padroeiro que pudesse competir com Santiago, em termos peninsulares, e com S. Jorge, ao nível da fama. Por isso, envia expedições ao Algarve, no intuito de descobrir o local onde repousava S. Vicente.
Começa aqui a lenda do padroeiro da cidade (e inicialmente também do país), retratada no seu brasão. Note-se que o Cabo que depois veio a ser de S. Vicente, se chamava então Cabo do Corvo. Assim, pode ter sido realidade que corvos tenham acompanhado a barca que transportou o santo para Lisboa. Contudo, ao ter tido S. Vicente um martírio de constante negação da morte, inscreve-se a sua santidade no paradigma divino apolíneo/dionisíaco de morte e ressurreição, confirmado pela presença dos corvos.
Estes não são apenas os pássaros negros e necrófagos, que nos alertam para a transitoriedade da vida; são as aves mais inteligentes, gregárias e fiéis que existem. Da mesma forma que as serpentes ligam a água e a terra, os corvos ligam a terra e o ar, sendo, por isso, também regidos pelo signo da dualidade em equilíbrio, a Balança (veja-se, por exemplo, a importância do corvo no sistema totémico dos índios norte-americanos, onde o mês de Libra é regido pelo corvo). Sem os corvos, a barca de S. Vicente seria apenas mais uma barca solar sagrada, semelhante à que transportava o deus Amon no Nilo. Faltar-lhe-ia a componente lunar/ctónica, que transforma Apolo em Dionísio/Luso, e este na equinocial divindade tutelar dos Lusíadas.

É por tudo isto que o dia de hoje, dia de S. Vicente, devia continuar a ser o dia da capital de Portugal. Muitos pensam que o bom tempo de Junho, no dia de Santo António, é que leva os lisboetas a festejar na rua, o que não aconteceria em Janeiro. Para quem duvide do sucesso que seria a festa de Lisboa neste dia, recordo que as festividades dionisíacas são as maiores folias que existem, não obstante ocorrerem durante o tempo frio. Desde há muito que são conhecidas por uma única palavra: Carnaval.
Cf. http://arieslibra.blogspot.com/2006/02/as-mscaras-de-luso.html
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