Sunday, February 03, 2008

Roma não paga a traidores

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A origem desta citação é um caso exemplar de confusão de fontes históricas. Muitos pensam que foi uma frase de César, quando quem a proferiu foi Pompeu. Muitos pensam que tem a ver directamente com a morte de Viriato, quando, afinal, está relacionada com a morte do mais famoso sucessor de Viriato. Acima de tudo, continua a contar-se a história errada, mesmo nas publicações mais recentes. Já anteriormente me dei ao trabalho de publicar um esclarecimento numa revista semanal, quando o então PM Guterres utilizou a citação num contexto errado. Aqui deixo, pois, a explicação definitiva:
Diz-se que foi esta a resposta de Cipião aos assassinos de Viriato, quando estes lhe foram pedir uma recompensa pela morte à traição do chefe lusitano. Se tal fosse verdade, não faria qualquer sentido, dado que tinha sido Cipião a pagar aos três lusitanos para matarem Viriato, porque não o conseguia apanhar de outra forma. A atitude de Cipião é a prova de que Roma pagava a traidores, quando era preciso.
De facto, a frase foi proferida por Pompeu, umas décadas mais tarde, quando ordenou a execução de Perpena, um dos assassinos de Sertório, o general romano dissidente que comandou a revolta dos lusitanos durante oito anos, causando mais problemas a Roma do que Viriato tinha causado. Sertório era um militar e político importante, que ganhou a confiança dos lusitanos e que pretendia tornar a Península Ibérica num Estado autónomo. Foi assassinado pelos mais próximos, durante um banquete, sem conhecimento ou participação de Roma. A morte de Sertório provocou o colapso da unidade lusitana, tendo-se rendido a Roma uma parte, e a outra continuado a lutar, ainda comandada por Perpena. Quando, finalmente, foi derrotado por Pompeu, Perpena tentou negociar a sua vida, entregando-lhe provas das traições de outros romanos. Foi aqui que Pompeu, após ter destruído as provas, executou Perpena e outros comandantes rebeldes, proferindo a célebre sentença: Roma não paga a traidores!
Esta é a história verdadeira e a que faz sentido. Porque se persiste, então, na versão Viriato? Porque para a memória lusitana (depois, portuguesa) era muito difícil reconhecer que o seu líder mais poderoso tinha sido...um romano. Como tantas vezes acontece, a realidade foi sacrificada à lenda, para que o mito (neste caso, o de Viriato) pudesse crescer.
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