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Malditos bem ditos
Foi há 200 anos que Junot chegou a Lisboa e ficou a ver navios, os tais que rumavam ao Brasil. Poderá ainda ter visto alguns ao longe, mas, ele já contava com isso, ao contrário do que reza a lenda que está na origem desta aplicação do dito; dito que teve origem nos sebastianistas, que esperavam ver o Rei regressar. O povo, gozando com a desdita do invasor, deu a volta à questão, literalmente, passando o dito ditoso a referir-se à partida da Rainha.
Seguiu-se a ocupação à grande e à francesa. Junot viveu como um rei, coleccionou amantes, cobrou altos impostos, roubou e permitiu que os seus subordinados roubassem. Com grande rapidez limpou as ruas de Lisboa de animais vadios, muitos deles perigosos, valha-nos isso. O dito lamenta a desdita de quem é roubado e explorado pelos descendentes dos francos com gostos caros.
Junot ocupou Abrantes, obrigou o povo a produzir roupa, calçado, comida e alojamento para as tropas e escreveu a Napoleão vangloriando-se da eficácia da operação. O resultado foi receber o título de Duque de Abrantes, pelo Imperador dos tratantes, resmungava o desditoso povo, que só ao Rei de Portugal reconhecia poder para tal (e tinha razão). Mas, enquanto o dito duque por cá reinou, a desdita continuou, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.
Pior que Junot foi Loison, o seu braço armado das expedições punitivas contra as revoltas populares, embora lhe faltasse uma mão. Na tradição do fradinho da mão furada, para o povinho o dito passou a ser o diabo, que também pode ser coxo. Por isso, ir prò Maneta é ir prò Inferno, é bater as botas, mesmo quanto o desditoso povo morria descalço. Não foi nada bonito de se ver, mas não foi tão mau quanto em Espanha. A milícia e a guerrilha fizeram o mesmo ou pior, tanto cá quanto lá. Só que a fama do dito Loison, antes de vir para Portugal, era, sobretudo, de ladrão. Devia uma fortuna ao exército, como tantos outros oficiais, que foi obrigado a restituir por Napoleão. Sabe-se onde foi buscar o ditoso vil metal. Conta-se que o Imperador terá em certa ocasião comentado que Volant era mau nome para tesoureiro (voler quer dizer tanto voar quanto roubar) ao que o dito Vollant lhe terá respondido que o seu nome tinha dois LL. Retorquiu-lhe Napoleão: Mas com dois LL (ailes=asas) rouba-se melhor! Seguindo esta linha de pensamento, o Imperador terá dito que Loison se deveria chamar Oison (que seria um oiseau=pássaro sem L) para não ter asa que lhe valesse (na roubalheira, entenda-se). Mas, mesmo maneta, voou e rapinou que se fartou cá pelo burgo.
Bendito mal dito
Não, a célebre despedida à francesa não se refere a Junot. Primeiro, porque o dito demorou semanas a embarcar, quando a dita despedida é rápida. Depois, porque se despediu à antiga, i.e., saiu com autorização do anfitrião (os portugueses não gostaram, mas os ingleses é que mandavam) e este até o acompanhou na saída (escolta inglesa). A despedida à francesa tem este nome porque se refere à alteração do protocolo nas reuniões sociais trazida pela Revolução Francesa. Enquanto no Antigo Regime ninguém se retirava sem se despedir do anfitrião e dos outros convidados, o novo modo de estar republicano optava pela saída discreta sem necessidade de autorização do anfitrião ou do conhecimento dos restantes convivas. Houve, de facto, um francês que se despediu à francesa de Lisboa, mas não foi Junot. O dito era um bendito ditoso que merecia que tal dito popular deixasse de ser mal dito e passasse a ser bem dito. Ou, melhor dito, que se desse o seu a seu dono. A seu tempo, que este bendito é meu, ou não fosse o dito um rapaz equinocial. Quem sabe, sabe. E mais não digo...por enquanto.