Thursday, November 29, 2007

Napoleão à brasileira

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E aí está ele! Panela virada ao contrário na cabeça, a imitar o chapéu, longo casacão azul, mão esquerda atrás das costas, mão direita enfiada de lado no colete: a famosa pose à Napoleão. É maluquinho, claro, como todos os que pensam que são Napoleão, mas também risonho e aventureiro este menino rabino, criação brasileira que há muitos anos diverte as crianças da terra de Vera Cruz. Poderiam ter-lhe chamado Rabuleone, o nome por que era conhecido na infância o verdadeiro 'menino maluquinho' Nabuleone ... que com a maluquice que teve ao invadir Portugal, acabou por provocar a independência do Brasil.
Faz hoje 200 anos que, na véspera da chegada das tropas francesas a Lisboa, tudo quanto era navio oceânico zarpou da costa portuguesa, no maior comboio transatlântico de que há memória: quase toda a frota de guerra, bem como a mercante de Portugal (então as segundas a nível mundial) e ainda alguns navios ingleses, num total de mais de 50 embarcações, transportaram a elite portuguesa que se mudou, com tudo quanto pôde levar, para o Rio de Janeiro, que passou a ser a capital de Portugal e do Império. Construiu-se a cidade, criaram-se as instituições e as estruturas do Estado. Foi a maior obra de D. João VI. Deu ao Brasil alicerces para se declarar independente muito mais cedo do que seria esperado.
A maioria da Corte regressaria a Portugal, na altura da morte de Napoleão, em 1821. O Estado português tornara-se constitucional em 1820 e, em 1822, o Brasil tornava-se independente. Juntemos a isto instituições como o Tribunal de Contas e códigos jurídicos baseados nos direitos de cidadania e veremos que a modernização do Estado veio, sobretudo, do 'menino maluquinho' original. Embora não tenha vindo com sorrisos traquinas, mas ao pontapé e à baioneta. Após as invasões, a mudança foi inevitável, mas não pacífica, com guerras e revoltas civis durante muitos anos; mas o chamado 'Antigo Regime' extinguiu-se: fim das monarquias absolutas, expansão das repúblicas e independência de muitas colónias. Tudo isto é o legado de Napoleão.
O Brasil sabe o que tem a agradecer ao 'maluquinho', e Portugal, embora tenha algo a criticar, também tem algo a agradecer.