Saturday, August 12, 2006

Vénus, Atena e Marte

Marco Zoppo, Vénus Armada, século XV.


Tornou-se moda afirmar que os homens e os EUA são de Marte (belicosos) e as mulheres e a UE são de Vénus (amorosas). Eu, que para além de mulher e europeia nasci sob o signo de Libra, de Vénus serei com toda a propriedade. Não desconheço, porém, que a atracção maior da deusa do amor era Marte, paixão proibida mas essencial para o eterno equilíbrio dos opostos equinociais: afinal tudo é permitido no amor e na guerra (pelo menos, era...). Vénus não precisava de Marte para fazer a guerra. Basta recordar a sua mais importante vitória, o pomo da discórdia, que levou à guerra de Tróia, ou ainda a descendência aristocrática romana do seu filho troiano Eneias, que lhe outorgou o epíteto de Venus Victrix (Vitoriosa) e a quem Pompeu dedicou um grande templo em Roma, há exactamente 2061 anos. O duplo V, tão próximo do marcial W homérico, e o grito de batalha Venus Victrix constituíam o “brasão” de Júlio César e foram emblemáticos para o seu descendente Augusto, primeiro Imperador. Ainda está para aparecer uma máquina de guerra tão poderosa quanto o exército de Roma e um império tão bem organizado quanto o romano...
No sentido inverso está o caso de Atenas, cidade vista nos nossos dias como a capital da paz na Antiguidade, que era protegida por Atena. Sem dúvida que esta deusa também comandava a sabedoria e a prosperidade (a coruja e a oliveira disso são símbolos); não obstante, é uma das divindades mais guerreiras que existem: já nasceu armada da cabeça aos pés e está sempre acompanhada por Nike, a Vitória. Os primeiros despojos da campanha de Alexandre na Ásia foram enviados para oferenda a Atena, deusa da guerra. No dia 15 de Agosto celebrava-se o seu nascimento nas festividades anuais da Panatenaia (de 8 a 17 de Agosto). Só durante estas celebrações religiosas era permitido aos cidadãos o porte de armas dentro da cidade, prerrogativa da deusa no resto do ano.
A vontade politicamente correcta de esquecer esta faceta essencial de Atenas, e até a existência do império ateniense, com o intuito de apenas recordar a democracia e a cultura como berço da civilização ocidental, acompanha o escamotear do contributo dado à sabedoria e à prosperidade pelo império romano, por quem vê nos EUA os sucessores contemporâneos da sua postura marcial. Ambas as deusas pagam o preço desta perigosa distorção da realidade, que coloca a guerra como algo não integrante da história mundial e, em consequência, da política e da cultura. Todavia, assim não foi e assim não será, enquanto houver homo sapiens