Segundo notícias fidedignas, quem escolheu as praias mediterrânicas para passar férias, sobretudo as espanholas, viu-se confrontado com uma praga de indesejados animais marinhos, cujo toque provoca alergias urticárias. Aqui, na nossa costa atlântica, o bicho semelhante a esponja gelatinosa dá pelo nome de origem árabe “alforreca”, que significa “espuma do mar”. Os gregos chamavam-lhe “ taça com asas”, das que levam veneno, mas não das sagradas como o Santo Graal.
Até visitar os Açores, no início dos anos 90, eu não conhecia a variante mais desenvolvida do bicharoco, em tudo a fazer lembrar um pequeno polvo colorido, que se confunde facilmente com plantas marinhas. Foi esse o meu erro, quando, numa praia de S. Miguel, ouvi gritos de “águas vivas” e vi toda a gente a sair da água a correr. Realmente, a zona da rebentação estava um pouco agitada, mas, interpretando a expressão em sentido literal e tendo a água pelos joelhos, achei ridículo tal alarmismo e deixei-me ficar a olhar para a aproximação de uma grande massa daquilo que eu pensava serem algas ou afins. O meu joelho esquerdo é que pagou o preço de eu desconhecer que a alforreca por lá tem outro nome: nunca saberei quantas foram as que ali se agarraram e por lá deixaram os tentáculos, que retirei a sangue frio. Uma coisa é certa: não me falem em veneno provocador de alergias, porque o que eu sofri foi uma descarga de ácido que deixou a zona afectada toda queimada e praticamente em carne viva. Pior ainda, na farmácia aconselharam-me a pôr álcool e a deixar sarar ao ar, por receio de a pomada habitualmente usada poder provocar ainda maiores estragos. Alívio, não tive nenhum.
Até visitar os Açores, no início dos anos 90, eu não conhecia a variante mais desenvolvida do bicharoco, em tudo a fazer lembrar um pequeno polvo colorido, que se confunde facilmente com plantas marinhas. Foi esse o meu erro, quando, numa praia de S. Miguel, ouvi gritos de “águas vivas” e vi toda a gente a sair da água a correr. Realmente, a zona da rebentação estava um pouco agitada, mas, interpretando a expressão em sentido literal e tendo a água pelos joelhos, achei ridículo tal alarmismo e deixei-me ficar a olhar para a aproximação de uma grande massa daquilo que eu pensava serem algas ou afins. O meu joelho esquerdo é que pagou o preço de eu desconhecer que a alforreca por lá tem outro nome: nunca saberei quantas foram as que ali se agarraram e por lá deixaram os tentáculos, que retirei a sangue frio. Uma coisa é certa: não me falem em veneno provocador de alergias, porque o que eu sofri foi uma descarga de ácido que deixou a zona afectada toda queimada e praticamente em carne viva. Pior ainda, na farmácia aconselharam-me a pôr álcool e a deixar sarar ao ar, por receio de a pomada habitualmente usada poder provocar ainda maiores estragos. Alívio, não tive nenhum.
A ferida deixava todos admirados. Houve até quem aventasse a hipótese de ter sido a picada da perigosíssima “ caravela portuguesa”, uma parente afastada da “água viva”, mas parece que não, dado que na ocasião não vislumbrei nenhuma “ vela azul “ ao vento. Foi sim o toque da Medusa (outro nome dado à mesma criatura). Embora não me tenha transformado em pedra, como o olhar da dita na mitologia, muito contribuiu para a disposição empedernida com que vivi a restante estada nas ilhas açoreanas: em S. Miguel a humidade dificultava-me a respiração e as dores eram muitas; na Terceira ainda me custava esticar ou dobrar a perna; só à sombra do Pico, com o ar bastante mais seco e a certeza de que a corrente levava as medusas todas para o Faial, consegui mergulhar a perna de novo no oceano e comecei a sentir-me um pouco melhor. A marca permaneceu por mais de uma década, ressurgindo mais nítida cada vez que apanhava sol.
Não sei se algum dia me atreverei a regressar à praia de Ponta Delgada, porque, para mim, é lá que se situa “ a rocha do fim do mundo, onde a Medusa vive com as suas irmãs”. A não ser que arranje uma perneiras como o escudo de Perseu...
Não sei se algum dia me atreverei a regressar à praia de Ponta Delgada, porque, para mim, é lá que se situa “ a rocha do fim do mundo, onde a Medusa vive com as suas irmãs”. A não ser que arranje uma perneiras como o escudo de Perseu...