Sunday, August 27, 2006

Plutão onde pertence


Hades rapta Perséfone perante a horrorizada Deméter
(Fresco do túmulo real da avó paterna de Alexandre, Eurídice.
c.345 a.C., Verguina, Macedónia, Grécia)



Parece que muita gente ficou escandalizada com a "despromoção" de Plutão de planeta para planeta-anão. Porém, ainda não soube das reacções de ninguém à "promoção" de Ceres de asteróide para planeta-anão. Não me parece que se trate nem de uma coisa nem de outra. Para mim, a evolução científica veio dar razão à mitologia.
Plutão (o Hades grego) vivia no submundo, num reino à parte, raramente vinha à superfície ou contactava com os outros deuses, embora todos fossem da mesma família. É o deus dos mortos e o seu poder reside exactamente no facto de que tudo o que vive lhe ir lá parar, mais tarde ou mais cedo; por isso, não tem de reger-se pelas regras dos vivos ou das divindades que os regem.
Uma das poucas visitas que fez à superfície foi para arranjar mulher, raptando Prosérpina, filha de Ceres (a Deméter grega). Esta deixou de exercer a sua actividade como deusa da agricultura até que Júpiter (o Zeus grego) obrigou Plutão a devolver Prosérpina à vida. Só que dando-lhe a comer uma romã, o fruto da fidelidade, Plutão conseguiu evitar o divórcio e teve o direito de ficar com a mulher durante quatro meses por ano, os meses em que Ceres (a natureza) dorme, porque não está com a filha. Com este expediente, o deus conseguiu enganar todos, não perdendo totalmente a guerra, tal como o planeta-anão "enganou" os astrónomos durante 76 anos, fazendo-se passar pelo planeta que não é.
Por causa de Prosérpina, Plutão (a morte) perdeu algum poder face a Ceres (a vida), embora esta não tenha tido uma vitória total: durante os meses mais frios, a sua filha é a deusa dos mortos e dos infernos, inspiradora dos receios inerentes a tal poder, que levavam à não invocação do seu nome original e à sua substituição por "Kore", um epíteto que significa "a donzela", a quem, não se podendo impedir a morte no Inverno, se desejava a ressurreição na Primavera. Já existe um asteróide com o nome de Perséfone (a designação grega de Prosérpina) junto a (sua mãe) Ceres, próximo (sob a protecção) de Júpiter; contudo, foi por causa de um outro planeta-anão recentemente descoberto próximo de Plutão que as categorias astronómicas tiveram de ser alteradas. Não duvido que o nome ideal para esse tal UB313 será Kore, porque Prosérpina tem dois nomes e pertence a dois mundos, assim se justificando dar nome a dois astros no sistema solar.
A gelada cintura transneptuniana, que agora se está a descobrir, é tão excêntrica em relação às órbitras dos oito planetas quanto os domínios do Plutão mitológico o eram em comparação com os dos outros deuses: pertence à família mas não vive como ela. Tamanhas coincidências mitológico-científicas fazem-me conjecturar se tudo estará afinal escrito nas estrelas e se aos humanos competirá apenas a descodificação.
Nota: Propositadamente, omiti a astrologia deste texto. Todavia, ao leitor não será difícil compreender as ligações entre Ceres e Virgo, Prosérpina/Kore e Libra e Plutão e Scorpio.