Saturday, March 18, 2006

Os 100 mil fundamentais



Está a acabar o Inverno. Após um mau Verão, um pior Outono, um péssimo Inverno. Que se resolvam os assuntos pendentes e se limpe a casa e a vida. Spring Cleaning , chamam-lhe os ingleses. Raramente desejei tanto a reverdie , o regresso do verde, o desabrochar da vida, da alegria primordial da Primavera. Faço votos, sinceros. Mas a limpeza geral é bem capaz de ser outra.

Deitemos fora, então, o que nos apouca e sejamos.

Postos perante a hipótese muito provável de pandemia de gripe das aves, decretou este tecnológico governo que temos que sejam administradas drogas antivirais aos 100 mil cidadãos fundamentais para o funcionamento do país. Quanto aos outros, valha-lhes Deus e a Senhora de Fátima e que tenham paciência! Acrescentou ainda a burocrata do Ministério da Saúde que a preocupação será controlar o caos que se instalará (como se fosse possível). Os bens, é preciso proteger os bens !
Assim, depreende-se que metade seja tropa e polícia. O meu irmão pode ser que se safe. Sobram então 50 mil. Parece-me muito para pessoal dos hospitais e do sector energético, onde terei mais uns tantos primos a safarem-se. Os que sobram terão de ser cangalheiros (está a restante família tramada). Certamente que a próxima medida preventiva será a preparação das cimenteiras da co-incineração para cremar os milhões de cadáveres que terão de ser destruídos, sob pena de morrerem os sobreviventes de peste. Não está o cenário suficientemente tétrico ainda, porque os primeiros não fundamentais são os velhos, os doentes e as crianças, não passando pela cabeça de ninguém que as famílias dos ditos 100 mil os acompanhem (pausa para risos patéticos). Preparemo-nos para o lacrimejante espectáculo de despedidas dos mimados rebentos e venerandos progenitores, bem como dos cônjuges bem amados; em contrapartida, para aqueles a quem falta coragem para o divórcio, esta política será a solução há tanto desejada. E os bens, esses ficarão para quem cá ficar.

Onde é que eu já vi isto? Chamava-se solução final e também vinha de socialistas, de nacional socialistas, vulgo nazis. A razão cria monstros, e eles aí estão: pois faça-se a selecção, rapidamente e em força, senhores.
Eu já estou habituada ao “tratamento especial”, portanto, a perspectiva do pássaro assassino afigura-se-me até romanesca. Há quem acredite que Alexandre morreu de um vírus transmitido por aves, o que dá toda uma outra dimensão ao assunto. E no céu foram visíveis milhares de asas a pairarem sobre as águas. Sublime! Quase bíblico! E ainda há outras contas apocalípticas a serem feitas: quantos desses 100 mil farão parte dos 144 mil que irão para o Paraíso, segundo as testemunhas de Jeová? E quantas hecatombes deverão oficiar para sobreviverem, como na marcha dos 10 mil de Xenofonte?
Muito se ri a Mãe Natureza de ter filhos tão anormais e, por isso, de quando em vez, dedica-se a pôr ordem na casa e a mostrar aos ditos deslumbrados a sua insignificância. Como verá quem sobreviver.

( Interlúdio teatral:
Entra em cena a Morte, que vem buscar Toda-a-gente, mas esta não está preparada, não quer ir sozinha, tem medo, tenta negociar:
-Posso levar a família?
-Não, que é deste mundo.
-Posso levar os amigos?
- Não, que à Vida pertencem.
- E o que vivi e fiz, para nada contam?
- Contam para a avaliação, mas comigo e contigo não vão.
- Posso levar o Poder?
- Não. Poder terrestre para nada conta na eternidade.
- E os meus bens, tanto que trabalhei para os ter ?
- Matéria são, claro que não. Tantos tens e tão pesados estão que sufocaram o Amor, que não tem forças para andar. E só ele te pode acompanhar. Outra companhia não admito e é-me indiferente que agora estejas aflita.
- Dá-me tempo para que eu possa o Amor alimentar, para que ele possa caminhar.
- O tempo de Vida que tiveste foi tempo para amar. Pudeste todo o mundo enganar e da tua consciência fugires, mas a mim ninguém me engana, pois sei de cada momento, palavra, acção e pensamento. Está na hora. Vamos !
Sai a Morte de cena, arrastando Toda-a-gente, “o cadáver adiado que procria”, segundo Fernando Pessoa.
Cai o pano. )

Eu, que não sou nem fundamentalista nem fundamental, para nada nem para ninguém (nem pessoa de bens), por aqui ficarei como os antigos a observar o voo das aves. Livre como o pássaro que me poderá matar. A acompanhar-me tenho sempre os meus dois anjos da guarda: Eros e Thanatos. Aprendi a viver com eles, a negociar anos de vida no Hades com a negra Morte, em troca de momentos no Olimpo com o branco Amor. Essa é a minha única missão na vida, por ser minha única certeza que de nenhum deles posso fugir. São eles os únicos fundamentais.
Mas os 100 mil governamentais/fundamentais (e muitos outros) farão como o criado que uma manhã no mercado de Bagdade viu a Morte a olhar para ele e foi implorar ao patrão para o deixar esconder-se em Samarra. E para lá foi, a toda a brida. O velho soldado, habituado a enfrentar a Morte, foi então ao mercado e perguntou-lhe porque tinha assustado o pobre criado. Imperturbável, como só a própria, respondeu-lhe a Morte que tinha apenas ficado admirada por vê-lo ali, dado que nessa noite tinha um encontro marcado com ele, em Samarra.

Aqui, no mercado de Bagdade, deito fora o que me apouca e sou.