Alexandre no Século XXI , copyright Filipe Teixeira (futuredesign@mail.pt)O Alexandre Prático
Glosando em título O Soldado Prático de Diogo de Couto, aqui se apresentam, como modo de usar, as acções e pensamentos do homem que dominava a Grécia, o Egipto e a Ásia até ao Indo, quando morreu, aos 32 anos, em 323 a.C.
A colecção “Clássicos do Pensamento Estratégico”, das Edições Sílabo, tem vindo a divulgar vários textos de grandes nomes da estratégia militar mundial (como Napoleão, César e Tai Kung) bem como estudos acerca das aplicações da estratégia e liderança à economia e política. De facto, “strategos” significa “comandante” e “oikosnomia” “governo da propriedade”. No estrangeiro, sobretudo nos EUA, fizeram escola as abordagens deste tipo acerca de quase todas as personalidades relevantes da história e da cultura, mesmo as não militares, como Moisés, Jesus, Gandhi, Shakespeare ou Edison. Trata-se de aprender com o passado e de ajustar o que de positivo ele teve aos nossos dias.
Acontece que se alguém foi e continua a ser exemplar, em qualquer campo que se escolha para estudo, essa pessoa foi Alexandre III , rei da Macedónia, comandante supremo da Grécia, imperador helenístico, que passou à história com o epíteto de Alexandre Magno, O Grande, ou Mega Alexandros (AM, neste artigo). Em Portugal, as Edições Europa-América publicaram a obra de John Adair, Aprenda com os Grandes Líderes: Motivar a Liderança , que inclui AM. Existem ainda mais três obras congéneres, que poderão ser traduzidas para português: de James Dunnigan e Daniel Masterson, The Way of the Warrior: Business Tactics and Techniques from History’s Twelve Greatest Generals , que inclui AM; de Antonio Ortega Parra, Alejandro Magno y la Géstion de Empresas , e de Partha Bose, Alexander the Great’s Art of Strategy : The Timeless Lessons of History’s Greatest Empire Builder, ambas apenas acerca de AM.
Há unanimidade nestas quatro obras em distinguir duas fases opostas na vida de AM. Durante a primeira, excepcionalmente brilhante, são-lhe reconhecidas capacidades de liderança (tornando-se modelo através do exemplo, reunindo uma equipa eficiente, delegando competências, exigindo e recompensando, ganhando a confiança através da comunicação e da proximidade, de castigos implacáveis e de generosidade infinita); e de estratégia (definição de objectivos, pragmatismo e decisões rápidas, audácia e controlo, preparação minuciosa e factor surpresa). Bose aponta até casos vários de outras personalidades e empresas que seguem o exemplo de AM (como a Universidade de Harvard ou Andrew Carnegie, o fundador da indústria de aço americana); enquanto Adair realça o carisma e o companheirismo como as suas maiores qualidades; e Dunningan e Masterson escolhem a visão como ímpar prova de genialidade. Qualquer gestor ou político que se preze encontrará nestas obras orientações preciosas para a sua carreira, dando continuidade ao que fez a maioria dos grandes líderes da história, para o bem ou para o mal: ter AM como referência maior.
O êxito de AM foi de tal forma inultrapassável que provocou um aceso debate, ainda na Antiguidade, acerca da sua principal aliada: seria ela a fortuna ou a excelência? Basta observar a façanha que era a sua organização logística para perceber que o trabalho tinha muito a ver com os seus feitos e a sorte muito pouco. Contudo, AM conseguia também aliar a estratégia à táctica, a ética ao pragmatismo e a frontalidade à astúcia, naquilo que Dudley Lynch classifica como a actuação do golfinho (cf. The Srategy of the Dolphin ). Lynch distingue entre tubarões (os que só pensam no ganho), carpas (os que evitam as perdas), pseudo-carpas iluminadas (os que aceitam os empates), e os golfinhos, portadores de uma visão bio-psico-social, que procuram o que funciona, mesmo no inesperado. O que Lynch diz ser a orientação estratégica para o século XXI é, afinal, característica da primeira fase de AM.
É a segunda fase, tida como negativa, que quase todos os estudiosos de AM têm dificuldade em entender, o que ocorre, neste contexto, sobretudo, na obra de Parra. A ideia de que AM perdeu a noção dos seus objectivos e, em consequência, a confiança dos seus, e se foi transformando num tirano, está explícita em alguns dos textos mais antigos que chegaram até nós. Porém, é necessário ter em atenção as circunstâncias e a biografa dos autores dessas apreciações; por exemplo, não se pode esperar que um historiador romano do tempo de Calígula (que dizia inspirar-se em AM) seja objectivo nas suas considerações em relação a ele. Esta contaminação persiste na actualidade (o caso dos historiadores alemães e de outro admirador de AM, Adolf Hitler, é o mais notório) e, embora AM lhe seja totalmente alheio, é ela que o mantém imortal, porque cada nova época descobre os seus AMs, tanto o negativo quanto o positivo (p. ex., os defensores dos direitos dos animais, nomeadamente por ter sido o primeiro “encantador de cavalos” de que há memória).
Vejamos, pois, em pormenor, essa obscura segunda fase da sua existência, que se resume a uma questão essencial: Queria AM conquistar o mundo e porquê?
O primeiro facto a ter em consideração prende-se com a geração de Filipe II (pai de AM) à qual não interessava ir na conquista além da Ásia Menor e Egipto, assegurando a libertação das antigas colónias gregas do domínio persa. Dá-se a primeira cisão com estes veteranos quando AM decide conquistar a Pérsia. Chegados a Persépolis, a capital, AM decreta o fim da campanha helénica, de que era comandante, e dispensa os combatentes gregos não macedónios, decidindo seguir apenas com o seu exército nacional para leste e norte, com o intuito de consolidar a conquista e não permitir qualquer contra ataque da parte dos persas. AM assume-se como Grande Rei no trono imperial persa, a partir de então, o que leva à segunda cisão com os seus homens, que não entendem as contemplações que ele tem para com os vencidos, que o levam a adoptar o cerimonial da corte persa, a incluir dignitários persas na administração dos territórios e combatentes persas no exército. Começam então as acusações de “orientalização”, mantidas por muitos estudiosos ainda hoje: AM ter-se-ia deixado seduzir pelo luxo asiático. É para mim claro que isso não corresponde à verdade.
A ideia de império é oriental na sua essência e está ligada à noção de um Soberano Todo-Poderoso, que exerce a tirania e a quem todos os povos conquistados devem vassalagem. A Pérsia é o máximo expoente imperial, com o seu Grande Rei, a sua tentativa de conquista da Grécia e a sua imposição do monoteísmo de Zoroastro. Não por acaso o Império Romano impôs o Cristianismo e o Império Árabe o Islamismo. Um Deus, um Imperador, um Mundo: há lógica na unificação.
A Grécia era o oposto: politeísta, individualista, democrática (não só em Atenas; os reis macedónios eram eleitos pelo exército) está na origem do conceito maior do Ocidente de hoje, a liberdade. A guerra de libertação contra os persas, engendrada por Filipe II, era uma campanha de vingança (no sentido antigo do termo de reparação pelas armas) pela tirania religiosa que os persas tinham imposto aos povos helenizados. Os templos haviam sido destruídos e os cultos proibidos, até no próprio Egipto. Assim se entende que AM tenha mandado queimar o palácio de Persépolis e os templos do zoroastrismo, ao mesmo tempo que venerava e restabelecia todas as religiões que existiam antes da conquista persa, incluindo o judaísmo. A sua máquina de propaganda fazia chegar às terras, com a devida antecedência, as novas de que o libertador estava a caminho. Tal factor explica que na maioria das localidades não tenha havido sequer luta. Porém, estas políticas aparentemente contraditórias (vingança inicial e respeito em seguida) conduziram a uma reacção de estranheza da parte dos seus homens, que apenas queriam conquistar o território que podiam controlar em situação de escravatura, como era uso, e não estavam nada interessados em ter ligações com os bárbaros.
AM percebeu que era uma questão de tempo até que os persas, muito mais numerosos, se revoltassem e atacassem novamente a Grécia. Nada mudaria no futuro, portanto, e isso era tudo o que ele não queria. E assim, lhe terá surgido a ideia de um mundo onde qualquer ser humano se pudesse sentir em casa, independentemente do local em que se encontrasse. Isto justifica a necessidade de controlar todo o mundo civilizado e de fundir raças e culturas. AM não se orientalizou: ao inverso, ele acreditava que a cultura grega se sobreporia às outras, porque era realmente superior, e que, da soma de duas partes distintas, a melhor parte de cada uma delas se imporia para a posteridade.
Note-se que nem com os seus sucessores, nem hoje, essa política foi implementada. Os reis helenísticos inventaram o cosmopolitismo e a tolerância, conceitos que estiveram em vigor até à descolonização europeia, que depois inventou o multiculturalismo, conceito que significa basicamente atribuir aos outros dois significados que eles nunca tiveram. Nas Alexandrias que AM fundou, e depois nas cidades romanas e medievais, tanto muçulmanas quanto cristãs, toleravam-se os estrangeiros, autorizando-lhes residência em bairros específicos (mourarias, judiarias, etc.) bem como liberdade de culto, em troca do pagamento de um imposto. Isto não significava que essas pessoas tivessem os mesmos direitos dos naturais, nem as mesmas liberdades. Antes pelo contrário, eram obrigadas a vestir-se de forma diferente, de modo a poderem ser identificadas em caso de infracção (uma das mais vulgares era o recolher obrigatório nocturno). Havia cosmopolitismo, porque vários povos participavam numa mesma sociedade (Alexandria do Egipto é o melhor exemplo), mas as minorias eram discriminadas, porque tolerância implica uma inferioridade do que é tolerado face ao que tolera. O multiculturalismo pretende que a tolerância e o cosmopolitismo dêem a igualdade, mantendo fronteiras culturais intransponíveis numa mesma localidade. O resultado desta confusão está à vista de todos, porque o problema que AM quis resolver ainda não foi resolvido, embora com a emigração constante seja agora mais pertinente do que nunca.
A terceira cisão na campanha de AM aconteceu na Índia, quando o exército se recusou a prosseguir e ele foi forçado a iniciar o caminho de regresso a casa. Tem de se ter em conta que AM acreditava que a fronteira do mundo para leste se encontrava próxima. Naquela época os sábios ocidentais, incluindo o seu mestre Aristóteles, pensavam que o mundo era bem mais pequeno do que é e que estaria rodeado de um grande oceano. Se algum erro AM cometeu então foi o de não ter dado o crédito devido ao seu “serviço de informações” (de que ele foi também o inventor). Os nativos diziam que não havia por ali mar nenhum, apenas um grande rio (o Ganges) ainda distante. Completamente exauridos, os macedónios deram mais ouvidos aos indianos do que ao seu rei e provaram estar certos. O livro de Parra discute em pormenor se a campanha dali para diante poderá ser considerada desastrosa, por se ter quebrado o elo de confiança entre chefe e subordinados. Não duvido de que foi um rude golpe para o encantamento com que AM dominava os seus seguidores. Porém, a ferida mais profunda terá sido a frustração daquele homem, que nunca desistiu de nada, e que foi obrigado a ficar com uma dúvida terrível para o resto dos seus dias, no respeitante ao verdadeiro tamanho do mundo.
As três cisões não produziram derrotas militares, mas conduziram a um fosso de incompreensão entre ele e os seus contemporâneos, provocando um isolamento cada vez maior, que o tornará autocrático, mas nunca tirânico. Ocorreu até uma tentativa de assassinato motivada pelo medo de orientalização (tiranização) do regime, que provocou algumas reacções emocionais extremas, incluindo a morte de um amigo, demonstrativas da necessidade de compensação que o ser humano AM também tinha. Todas as obras em causa apontam isto como um erro grave, tanto de liderança quanto de estratégia. No entanto, teria sido positivo abdicar daquilo que ele considerava ser a sua missão na vida? A resposta é não, obviamente. O politeísmo grego procurava fazer corresponder as divindades estrangeiras às suas, o que terá contribuído para esse projecto de mudança radical do mundo, antecipando em mais de 2000 anos a evolução da humanidade, no limiar do qual só agora nos encontramos.
Só que a estrutura imperial na qual essa sociedade global se deveria apoiar é assumida hoje a contragosto pelos EUA. A invasão do Iraque é um bom exemplo da má cópia que tentaram fazer da conquista da Babilónia por AM: foram pretensiosos ao ponto de pensarem que iriam ser recebidos como libertadores e que, para tal, bastaria controlar a capital e prender Saddam. O resultado foi uma campanha militar mal feita, onde não se controlou o território nem as fronteiras e se confiou cegamente nas informações dos opositores políticos do regime, com óbvios interesses na sua queda. Tudo indica que AM, nessa situação, só invadiria o Iraque com muito mais tropas e meios e, sobretudo, com muito mais vontade da parte dos americanos de darem vidas por tal objectivo. A mentalidade “pacifista” que está na essência da sociedade americana leva a que as suas intervenções militares sejam escamoteadas como exercícios de libertação ou auto-defesa. Mais sincero seria falarem em interesses vitais (nos quais se inclui o petróleo), mas a retórica americana é anti-imperialista de raiz e, provavelmente, não mudará: os EUA têm todas as necessidades de um império e mais meios do que qualquer outro para as colmatarem, mas recusam-se a admitir esta verdade, embora da fama (e do proveito, às escondidas) não se livrem.
Assim, encontramo-nos dependentes de instituições internacionais de grande fragilidade, devido aos mais variados jogos de poder. Resta saber o que fará esta comunidade internacional quanto às ameaças do Irão, visto que nada fez de 1979 para cá. Frequentemente, as negociações não passam de uma mistura explosiva de medo e desprezo, e se o primeiro espelha fragilidade, o segundo só fortalece quem é subestimado. Esta lição deveria ter sido aprendida com o 11 de Setembro. Os persas serão sempre os persas, foi essa grandeza que AM soube reconhecer. São culturalmente superiores a todos os outros povos do Médio Oriente e mantêm uma postura anti-ocidental, antes estruturada pelo zoroastrismo, agora pelo Islão. AM nunca tentou democratizar os povos não helenizados, porque tinha consciência da ligação entre cultura e política e sabia que só com o tempo se operariam as desejadas mudanças. Com a tecnologia actual, já é possível fazer alguma coisa a esse nível, usando a força das armas apenas como ameaça. Desejarão os iranianos a liberdade, ou a tradição cultural da tirania será mais forte? A resposta ocidental deve ser cultural, mas isso só poderá surtir efeito se, tal como AM, o Ocidente acreditar na superioridade da sua civilização, porque só assim os outros quererão participar nela. Acabar com os guetos e com o relativismo cultural do politicamente correcto, exigindo a participação de todos, apostando na fusão e não na diferenciação, poderá ser o melhor caminho para o desenvolvimento global. Casar o Ocidente com o Oriente foi o objectivo do criador da globalização, que, por isso, justamente, merece o título de Rei do Mundo.