
The story so far: Em 1965, um grupo de música pop experimental denominado Pink Floyd é formado em Londres. A liderá-lo está “Syd” Barrett, guitarrista, compositor e cantor, com apenas dezanove anos. Na altura em que é publicado o primeiro LP do grupo, em Agosto de 1967, Syd deixa de tocar em palco, alheia-se do que o rodeia e assume comportamentos erráticos. No início de 1968, o resto do grupo decide substituí-lo por David Gilmour. Syd fará ainda dois Lps a solo, onde se recusa a fazer ensaios e a tocar em grupo.
Foi fotografado às compras na véspera do LIVE 8 (onde os Floyd mais uma vez o invocaram). Aparenta estar saudável e mantém ainda os traços de beleza que (também) o tornaram famoso. A todos os que o perseguem com perguntas sobre a carreira musical, costuma responder: “isso já não tem nada a ver comigo”.
Crazy diamond: De tudo o que se sabe de Barrett, se é crazy , tê-lo-á sido toda a vida. Foi sempre diferente, excêntrico, artístico, imaginativo, rebelde, indisciplinado. Se juntarmos a isto uma energia de sprinter (era um corredor muito rápido) um humor tão cáustico quanto infantil e a capacidade de fazer bem e depressa tudo o que lhe interessava, temos um cocktail explosivo de genialidade. Mas não é tudo; acrescente-se uma personalidade magnética, com charme, humildade e generosidade desarmantes e fisicamente muito atraente. Não havia quem lhe resistisse: nem família, nem amigos, nem o sexo oposto. Aos 14 anos já tinha meia cidade a virar a cara quando ele passava na rua , e os amigos de infância, como Gilmour, não negam que tinham inveja da sua popularidade. Syd nunca desejou ser uma estrela, porque sempre o foi. Todas estas bençãos deram-lhe tudo o que quis, até ao dia em que ouviu o primeiro não. A partir de então, o Syd anjo foi vencido pelo Syd demónio, que transformou cada uma delas numa maldição. O diamante em bruto nunca admitiu ser lapidado, optando pela autenticidade em vez do brilho, mantendo-se igual a si próprio até ao extremo da loucura (ou da sua aparência).

The dark side: Efectivamente, nunca lhe foi diagnosticada qualquer doença mental, nem prescrição de tratamento para a combater. Roger Waters continua a afirmar que Syd é esquizofrénico, mas outros amigos atestam a sua lucidez extrema e a postura “à Hamlet” (a passar-se por tontinho) na época da ruptura dos Floyd. O olhar não era distante mas penetrante, ao ponto de incomodar: “ele via através das pessoas”, garantem. As drogas, sobretudo o abuso do LSD, terão provocado atitudes agressivas, contraditórias e apáticas, certamente, mas talvez não lesões cerebrais. O que não deixa dúvidas a ninguém é o enorme esgotamento que o atingiu, talvez durante anos, para o qual os alucinógenos poderão ter contribuído, mas não terão sido a causa principal. Na minha opinião, Barrett cedeu ao seu demónio interior e o “lunático tomou conta da casa”.
Vivendo dos rendimentos que a fama dos Floyd lhe proporcionava, sem qualquer motivação para fazer fosse o que fosse, passou anos a fio a comer doces e a beber cerveja preta, fugindo das pessoas e respondendo com atitudes corrosivas àqueles que com ele tentavam comunicar. A deterioração mental era, portanto, acompanhada por destruição física: engordou ao ponto de ficar disforme, rapou o cabelo e as sobrancelhas. Do jovem esbelto, de cabelos negros e olhos verdes, já pouco restava. Não obstante, a este processo de autodestruição ainda resistia algum engenho. Syd sempre fora o "palhaço de serviço", fazendo jus ao " king of mischief" comemorado a 6 de Janeiro. Resolveu, portanto, pregar mais uma das suas partidas aos Floyd, aparecendo no estúdio, em 1975, nestes preparos. Em vez de risos, houve choque geral e evidente, sobretudo em Waters, que teve um ataque de pânico. Para Syd foi, provavelmente, o mesmo do que ficar especado no meio do palco sem tocar uma nota: uma brincadeira de mau gosto para que os outros entendessem do seu desgosto, sem se preocupar com as consequências.
Todo este comportamento pode soar a falso, porém Barrett nada tem de teatral. Ele é, na carne, a recusa da máscara, seja ela compromisso, seja ela sociabilidade. Sempre me fez lembrar um Aquiles que tivesse perdido a “birra” em Tróia. Dessa derrota veio a imensa tragédia da sua existência: conseguiu pôr contra si todos os que o amavam. Mas uma coisa é certa: não cedeu. Os outros queriam uma carreira de estrelato e conseguiram-na. Ele recusou-se a aparecer em programas repetitivos de tv ou de rádio e esgotou-se após 200 espectáculos. Quis apenas a arte pela arte, espontânea e religiosa (no sentido que este termo possuía nos anos sessenta, de união de todos os elementos). Se o ácido abria horizontes mentais, usou-o; se a música se podia unir às luzes e à pintura e levar-nos a viajar pelo espaço, construiu a nave espacial; se os poemas e melodias nos levavam de volta á infância, foi o flautista que nos guiou aos pulos pelos bosques encantados. Foi Dionísio, foi Orfeu, foi Pã. E depois parou, porque já nada havia de novo, e, à sua maneira de génio excêntrico e mimado, disse ao grupo que tinha de parar e mudar também. Não aconteceu tal, como se sabe, mas ele nunca deixou de assombrar a carreira dos Floyd. O mais irónico é que as três obras que lhes granjearam reputação mundial têm por referente a infelicidade de Barrett: The dark side of the Moon, Wish you were here e The Wall, e foram compostas, em grande parte, pelo outro Roger, que se tornou amigo de Barrett quando este tinha apenas nove anos e ele onze.

Two lost souls: Para mim, os Pink Floyd são obra destes dois homens tão complementares. Barrett precisava da racionalidade e responsabilidade de Waters (e não conseguiu impor-se sem ela) e Waters continua a precisar (como assumiu nos últimos anos) do génio e da grandeza de Barrett. Enquanto Barrett caminhava pelo céu, Waters era a âncora, com os pés bem assentes na terra. Até ao dia em que o largou...
Talvez George Lucas tenha razão e haja mesmo regresso do “dark side”. Quem sabe se não bastará que Roger Waters bata à porta do amigo que nunca esqueceu. Pode ser que o amigo também não o tenha esquecido...
P.S. : A influência de Barrett no rock é múltipla e vasta. Penso que o caso mais óbvio, embora nunca assumido, se encontra no famoso Ziggy Stardust de David Bowie, criado após ter assistido a um concerto dos Floyd em 1966. Na canção com o mesmo título é descrita a ruptura do grupo. Os interessados que verifiquem.