Saturday, January 14, 2006

Cavaquinho / Kroncong / Ukulele



Se há objecto que marca a presença portuguesa no mundo, ele é o cavaquinho. Nas suas diversas variantes, esta pequena guitarra de quatro cordas foi levada nas naus para Cabo Verde (onde é usada nas mornas), para o Brasil (onde aparece nas modinhas), para a Indonésia (onde inventou o kroncong) e para o Hawai (onde é hoje a famosa guitarra havaiiana, ou ukulele).
Quem ouça e compare estes tipos de música reconhecerá o tocar rasgado, mais ou menos rápido, da braguinha, uma herança minhota (possivelmente galaico-portuguesa) adoptada e muito divulgada por marinheiros de todas as regiões do país.
À ilha de Java terá chegado o rajão, um cavaquinho madeirense de cinco cordas (a pronúncia “crontjong” parece ter a ver com o som de “rajão”). Não consigo entender por que razão este tipo de música continua a ser ignorado em Portugal, se ele é tão parecido com o fado e com a morna e, por vezes, cantado ainda em português. Mais ainda: o kroncong é um caso de sincretismo feliz, porque se misturou com o tradicional gamelan, dando origem ao “Langgam Jawa” e ao “Gambang Jawa”, que foi primeiro a música dos pobres e depois a dos independentistas, enquanto a sua adaptação ao teatro de comédia criava uma outra variante musical, o “Gambang Kromong”.
No caso do Hawai, foi também um madeirense quem entusiasmou os nativos com a sua destreza de tocador e , por isso, eles chamaram ao cavaquinho "uku-lele", que significa “pulga saltadora”. Esta ligação entre ritmo e velocidade (com os dedos a saltarem como pulgas) remete-me para o meu post anterior e para uma interessante coincidência.
Em 1971, numa rara e notável entrevista, Syd Barrett confessava:
“... All I ever wanted to do as a kid was to learn to play guitar properly and jump around a lot ... But too many people got in the way...”.
Ainda hoje, Syd é universalmente reconhecido como tendo explorado a guitarra ritmo em níveis então inimagináveis. Quem sabe se foi por entender a natureza de “pulga saltadora” do filho que o pai lhe ofereceu aos sete anos um ukulele como primeira guitarra. E quem sabe se um dia ele voltará a tocar...