Certamente que já terá ouvido falar de Aquiles, o Rei-Guerreiro da Antiguidade, herói de A Ilíada de Homero. Saberá da sua invencibilidade, à excepção do calcanhar, que lhe concedeu a fama de ser o maior dos guerreiros gregos. Mas, já tinha ouvido falar de Aquiles, o Curandeiro, e da planta que usava como panaceia, cujo nome botânico é Achillea Millefollium ?
Reza a mitologia que Aquiles, modelo de reis para a posteridade, foi educado pelo centauro Quíron em todas as artes, inclusive a medicina. Há pinturas muito antigas representando Aquiles a tratar dos ferimentos dos seus homens. Diz-se que foi a ferrugem caída da sua espada que fez brotar da terra a planta, de grande préstimo no campo de batalha e, por isso, também conhecida por “erva militar”. Uma das principais aplicações do Milefólio é como coagulante, estancando com rapidez as hemorragias.
Aquiles representa, pois, o conceito original de Rei-Sagrado: o protegido da divindade, o líder dos homens, o melhor dos guerreiros e o curandeiro dos impossíveis. O guerreiro e o curandeiro são, afinal, as duas faces da mesma moeda, a do herói humano que desafia o poder da Morte.
Parece-me muito provável que tenha sido a planta de Aquiles a servir de inspiração a Tolkien para a criação da sua “erva do rei”, Athelas ou Kingsfoil, que Aragorn usa para curar os incuráveis Faramir, Eowyn e Merry, em O Senhor dos Anéis . Não por acaso, só o consegue fazer no final da história, após se ter assumido como rei, dado que apenas o verdadeiro rei saberia fazer uso daquela misteriosa planta. Com este argumento, Tolkien recorda-nos que as mãos de qualquer rei têm poder de morte, mas só as do Rei-Sagrado curam, tendo também poder de vida.
Moral da história: mesmo as plantas mais singelas podem transmitir verdades há muito esquecidas.
