Saturday, September 09, 2006

Alexandre face à doença

Alexandre Magno e o seu médico Filipe, gravura de Louis Gallait, século XIX.

Nove eram os ferimentos mais importantes, embora tivesse muitos mais. Quando, frente a um motim, removeu as vestes, de modo a que os soldados vissem o corpo cheio de cicatrizes, o desejado efeito de vergonha foi arrasador. Na verdade, nenhum guerreiro havia que se lhe pudesse comparar. O pior de todos era o pulmão perfurado por uma lança, que quase o matou, mas havia ainda o ombro partido, um corte profundo numa coxa, uma contusão na cabeça, etc.
Liderando da frente, sempre o primeiro na linha de ataque, Alexandre não era um lunático irresponsável, pois essa era a atitude exigida pela liderança pelo exemplo que praticava. Acresce que possuía uma enorme capacidade de resistência, que levava a que suportasse a dor para além dos padrões razoáveis. Numa ocasião em que sangrava profusamente de uma ferida, foi receber um tratamento rápido e regressou à batalha, onde acabou por perder os sentidos, provavelmente por perda excessiva de sangue.
Aos que criticavam a falta de prudência, dizia sempre o mesmo: tinha sido necessário fazê-lo para vencer. E não era desculpa ou soberba. Numa liderança tão carismática e personalizada, a sua presença bastava para animar as tropas. E a quem insinuava que ele estava convencido de que era imortal, respondia que nas suas veias não corria icor dos deuses, apenas sangue humano. Alexandre tinha consciência de que o heroísmo lhe encurtaria a vida e estava preparado para isso, ao inverso de muitos dos que o rodeavam, que, por isso mesmo, não o compreendiam.
Só que havia ainda enormes custos em desgaste físico, que ele pagava com convalescenças demasiado longas para o seu espírito impaciente. Conta-se que o seu médico pessoal, Filipe, lhe ia administrar um remédio, quando o rei lhe entregou uma carta de um dos principais generais, onde este o aconselhava a ter cuidado, porque possuia informações fidedignas de que o médico pretendia envenená-lo. Enquanto o aflito Filipe lia a carta com o espanto e temor que se possa imaginar, Alexandre pegou no recipiente do medicamento e engoliu todo o conteúdo. O pobre médico nem podia acreditar que afinal a denúncia se podia tornar realidade, pois o doente só deveria ter tomado uma pequena porção; mas o rei tranquilizou-o logo, justificando que estava apenas a acelerar a cura e a mostrar que confiava totalmente nele. Em seguida suportou estoicamente as consequências da dose desmedida, quaisquer que tenham sido.
Este episódio revela um comportamento de risco que está na origem da teoria que atribui a sua misteriosa morte a uma cura e não a uma doença. Seguindo o exemplo do seu modelo, Aquiles, Alexandre tinha conhecimentos de medicina e farmácia e tratava dos seus homens sempre que ele próprio não estava ferido ou doente. Não parece descabido, portanto, que tenha sido um exagero na auto medicação a provocar um envenenamento involuntário. Porém, Alexandre era muitíssimo rápido em tudo e também o era a aprender com os próprios erros, que nunca repetia. Uma vez, após uma marcha extenuante, sentiu tanto calor que resolveu dar um mergulho num lago. A água estava tão gelada que ele ficou paralisado pelo choque térmico e quase morreu. Seguiram-se longos dias de febre e convulsões. Daí em diante, não obstante o calor e o cansaço, não tornou a repetir a graça. Tendo em conta o episódio com Filipe, nada há que indique que não terá feito o mesmo em relação à hipotética overdose.
Não havendo provas que sustentem as teorias, a especulação quanto às causas da morte continuará. A recente explicação “comportamental”, baseada na forma como enfrentava e reagia à doença, alberga pontos a favor e pontos contra, aqui apresentados. Todavia, a contradição é superficial, como em tudo o que a Alexandre diz respeito: nele existia um raro equilíbrio entre emoção e razão, invisível para muitos, onde se encontra a explicação para todas as suas acções.
-