

É curta a memória das gentes, sobretudo nestes tempos do instantâneo, onde o conhecimento histórico está fora de moda. Assume-se que ser moderno é ser infocompetente, como se saber usar uma máquina (computador ou outra) nos desse um lugar no mundo. Compreender a nossa existência, sem possuir referências ao passado de onde vimos, é tarefa impossível; por isso, conhecer as tradições é importante, pelo menos para distinguir entre as obsoletas e as que dão ainda hoje sentido à vida.
O Carnaval é um exemplo gritante da confusão cultural que grassa cá na terra: o pessoal habituou-se ao feriado e revoltou-se quando Cavaco o tentou suprimir, mas apenas por a tal estar habituado; os desfiles são pirosos e patéticos, com meninas arrepiadas de frio, vestidas como as mulatas do Rio de Janeiro; salvam-se os carros alegóricos, com sátira política, e as criancinhas que podem assumir uma identidade de fantasia por um dia (a propósito, lembro-me de ter tido também o meu dia de glória, vestida com o traje típico das mulheres da Nazaré, que escolhi pelos enfeites e os brincos dourados, o chapéu com véu, as socas, as meias de renda e as sete saias, tudo o que impressionava uma miúda de seis anos no declínio do salazarismo).
A globalização importou o Carnaval brasileiro para a Europa, com grupos musicais a marcarem presença nas festividades da Dinamarca, por exemplo, mas sem fazerem as figuras tristes de se equiparem como se estivessem 40 graus de temperatura ambiente. Só em Portugal parece não haver noção do ridículo, o que, ironicamente, pode servir para atestar que somos o povo mais carnavalesco do mundo (daí vivermos em constante negação).
Confusos? Permitam-me que vos conte como começou tudo isto.
No início, eram as festas do Solstício de Inverno, onde o masculino se mascarava para melhor possuir o feminino (a semente na terra), expurgar a morte e propiciar o florescimento na Primavera vindoura. Mais tarde veio Dionísio, o deus do vinho e do êxtase, honrado nos três dias da Antestéria helénica. Era transportado num carro em forma de barco, a que os romanos chamaram carrum navale, e com ele trazia as pipas de vinho, que eram então abertas (pensem nos barcos rabelos). No segundo dia, escravos e senhores confraternizavam lado a lado, mascaravam-se e divertiam-se de maneira libertina (o indivíduo civilizado desaparecia em favor do todo humano primordial). Ao terceiro dia, havia cerimónias exculpatórias pelas ofensas dos dias anteriores e uma grande homenagem aos mortos, cujas cinzas se honravam com libações. A adaptação cristã desta monumental catarse consistiu em aceitar alguns devaneios (nomeadamente o consumo de carne) antes da grande penitência, a Quaresma.
O Senado romano acabou por proibir todas as Bacanais (festas em honra de Baco/Dionísio) ainda antes do Cristianismo (o Carnaval era apenas uma delas) por manifesta incapacidade de controlar a licenciosidade daqueles dias. No entanto, manteve-se a Lupercalia, o grande feriado romano de Fevereiro, que ostenta uma ritualização idêntica às restantes festividades de Inverno.
É este o genuíno Carnaval, um ritual masculino de fertilidade, onde o macho humano se mascara com produtos vegetais (por exemplo, palha) e animais (por exemplo, bexigas de porco) para possuir simbolicamente a mãe natureza. Ainda existem um pouco por toda a Europa tais tradições, mas permito-me escolher as que têm mais a ver com as minhas raízes paternas transmontanas, os Caretos de Podence (na foto à esquerda) e com as minhas raízes maternas galegas, as Pantallas de Xinzo de Límia (na foto à direita). Ambos vestidos de lã, ambos mascarados, ambos perseguidores “chocalheiros” das raparigas solteiras e castigadores dos homens que não participam (obrigados a pagar uma rodada de vinho aos foliões).
Noutras paragens, sobretudo em Veneza e em Estugarda, os trajes tornaram-se sofisticados, verdadeiras obras de alta costura, existindo concursos para eleger o melhor. Entretanto, as mulheres também se foram juntando à festa, relegando para segundo plano o papel passivo de objecto desejado a que estavam votadas. A tradição medieval de que as mulheres só se podem declarar aos homens no dia 29 de Fevereiro terá certamente raízes na cada vez maior participação feminina nas mascaradas carnavalescas. No Brasil, o Carnaval, levado pelos portugueses, adaptou-se ao tempo quente, substituindo a máscara pelo enfeitar do corpo nu, o que tem toda a lógica. Por essa mesma razão, transformou-se, sobretudo, numa festa de mulheres. No Carnaval masculino, o da Europa, o homem esconde-se numa máscara fria como o Inverno; no Carnaval feminino, o da América do Sul, a mulher expõe a sua beleza ao calor do Verão.
São estas as razões por que o Carnaval deve continuar a ser feriado nas terras lusófonas. Divirtam-se, pois, filhos de Luso (outro nome para Dionísio), provem o vinho, dancem e cantem, sejam felizes, que hoje é o dia mais importante, o do ritual de acasalamento. Amanhã nos lembraremos que “somos pó e ao pó regressaremos”.
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O Senado romano acabou por proibir todas as Bacanais (festas em honra de Baco/Dionísio) ainda antes do Cristianismo (o Carnaval era apenas uma delas) por manifesta incapacidade de controlar a licenciosidade daqueles dias. No entanto, manteve-se a Lupercalia, o grande feriado romano de Fevereiro, que ostenta uma ritualização idêntica às restantes festividades de Inverno.
É este o genuíno Carnaval, um ritual masculino de fertilidade, onde o macho humano se mascara com produtos vegetais (por exemplo, palha) e animais (por exemplo, bexigas de porco) para possuir simbolicamente a mãe natureza. Ainda existem um pouco por toda a Europa tais tradições, mas permito-me escolher as que têm mais a ver com as minhas raízes paternas transmontanas, os Caretos de Podence (na foto à esquerda) e com as minhas raízes maternas galegas, as Pantallas de Xinzo de Límia (na foto à direita). Ambos vestidos de lã, ambos mascarados, ambos perseguidores “chocalheiros” das raparigas solteiras e castigadores dos homens que não participam (obrigados a pagar uma rodada de vinho aos foliões).
Noutras paragens, sobretudo em Veneza e em Estugarda, os trajes tornaram-se sofisticados, verdadeiras obras de alta costura, existindo concursos para eleger o melhor. Entretanto, as mulheres também se foram juntando à festa, relegando para segundo plano o papel passivo de objecto desejado a que estavam votadas. A tradição medieval de que as mulheres só se podem declarar aos homens no dia 29 de Fevereiro terá certamente raízes na cada vez maior participação feminina nas mascaradas carnavalescas. No Brasil, o Carnaval, levado pelos portugueses, adaptou-se ao tempo quente, substituindo a máscara pelo enfeitar do corpo nu, o que tem toda a lógica. Por essa mesma razão, transformou-se, sobretudo, numa festa de mulheres. No Carnaval masculino, o da Europa, o homem esconde-se numa máscara fria como o Inverno; no Carnaval feminino, o da América do Sul, a mulher expõe a sua beleza ao calor do Verão.
São estas as razões por que o Carnaval deve continuar a ser feriado nas terras lusófonas. Divirtam-se, pois, filhos de Luso (outro nome para Dionísio), provem o vinho, dancem e cantem, sejam felizes, que hoje é o dia mais importante, o do ritual de acasalamento. Amanhã nos lembraremos que “somos pó e ao pó regressaremos”.
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