Thursday, May 13, 2010

Pregos para caixões

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O Estado português dá o montante de 216,83€ como subsídio de funeral. Que mortalha se conseguirá com tal preço?
O.K. Subsídio é uma ajuda. Pressupõe-se que quem faz o enterro terá o resto do dinheiro necessário.
E mais: só alguns têm direito a este subsídio, como a tantos outros. Para não variar, eu não tenho direito a nenhum. 23 anos de sangue, suor e lágrimas, os melhores da minha vida, descontos para uma reforma que nunca vou receber e para todo o resto que o Estado para que trabalhava exigia, e não tenho direito a nada. Com os direitos fundamentais cortados, só terei direito ao inevitável: a morrer.
Tendo em conta as drogas que me têm posto na comida e na bebida, desde há um ano, que me têm obrigado a deixar de frequentar cafés e restaurantes de toda a vida, se calhar já estiveram mais longe de terminar o serviço. Um joelho já me partiram, e tivesse eu tomado a medicação receitada e estaria agora transformada num farrapo ou acabada de vez. Isto de se ser perseguido pelo Estado dá quase sempre mau resultado. Mas quanto ao funeral, não me preocupo. Está o assunto resolvido. Por questão de saúde pública, o Estado é obrigado a dar sepultura a todos, em vala comum e no mais reles caixão, porque os mortos não podem ficar a apodrecer por aí.
Acho justo, e será até o fim merecido para mim. Afinal Mozart acabou dentro de um saco de serapilheira com três pazadas de cal em cima e era a "voz de Deus". Eu, que ainda não sei bem o que sou para Deus, mas certamente serei alguma coisa ou já há muito me teriam feito o funeral, sentir-me-ei muito bem acompanhada na morte miserável, como agora já me sinto na miséria da vida, por tão abençoada criatura. A sério: adoro a tua música, Wolfie.
Que se vão preocupando com os seus túmulos luxuosos, com ou sem subsídio, todos os que me puseram na infernal miséria em que me encontro. Porque um dia a morte chegará também para eles, quem quer que sejam, onde quer que estejam. E mesmo que eu já não esteja viva, nesse dia ser-me-á feita justiça. Mas antes deixarei como herança uns tantos pregos irrecusáveis para os respectivos caixões.
Amén!
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( Ilustrado por uma das melhores cenas da história do cinema:
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