
Os festivais da Eurovisão passaram de concurso piroso a acontecimento verdadeiramente popular. Quem diria! As canções portuguesas raramente foram boas ou fizeram boa figura. Este ano, por fim, tivemos uma excelente canção, muitíssimo bem interpretada e ficámos... a meio da tabela. Resta-nos a consolação, que outros tiveram noutros anos, de termos a canção que vai ficar para a história. Assim o reconheceram os jornalistas presentes, ao lhe atribuirem o Prémio da Imprensa. Estou convencida de que vai ter muito êxito em todo o lado.
A música é um lamento de viúva, uma homenagem ao fado das portuguesas que perderam os homens no mar. Perdidos foram pescadores, marinheiros, navegantes, e o sal do mar está cheio de lágrimas de Portugal, de facto; dos que lá ficaram e das que os choraram nas praias. Embora seja um tema muito português, é também universal, porque está ligado a todos os povos insulares e marítimos. Por isso, a mitologia nos revela seres femininos tão atraentes quanto maléficos, que provocam tempestades e naufrágios, arrastando os homens para o fundo. As pobres mulheres não têm como vencer uma batalha tão desigual. As vencedoras são sereias, por vezes; outras vezes são mais do que isso: são deusas muito poderosas.
A gravura reproduzida em cima representa Loro Kidul, a Rainha dos Mares do Sul, uma deusa indonésia. Ao contrário de outras divindades tradicionais, a Senhora do Mar do sul da ilha de Java não caiu no esquecimento. O seu culto está bem vivo e profundamente enraizado na alma javanesa. Daí, os visitantes dos seus domínios serem aconselhados a não se vestirem de verde (cor sagrada da deusa) e a nunca voltarem as costas ao mar. Na actualidade, não há outra Senhora do Mar tão importante quanto ela.
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